O menino que me guarda

28 de abril de 2010 às 17:49 - 3 Comentários
Por Carmen Vasconcelos

“…‘A benção, senhor’. Isto, nada mais.
Profundamente forte é a vida.”
Salvatore Quasimodo

Ilustração: “Meninos Soltando Pipas”, de Cândido Portinari

Desde o nascimento, um menino me guarda. Nasceu da minha barriga, do cordão umbilical e da placenta colada que minha mãe guardou por horas. Nasceu da minha primeira respiração e do meu primeiro choro; nasceu quando nasci, porque antes de mim ele não existia. O menino grande me ganhou, para o seu avesso. Mas se não fosse eu o seu avesso, o menino que me guarda seria incompleto.

Ele não teria escuridões, se não me guardasse. Seria Apolo com carência dionisíaca.

Diante da sua retidão épica eu sou apenas garatuja. Meu menino tem um aguçado senso de justiça, uma compaixão instintiva e orgânica. Mesmo quando quer, mesmo quando em fúria, mesmo quando erra, nunca consegue fugir à própria bondade. É da raça dos que são bons, por condenação.

O menino que me guarda e que amamentou os meus primeiros porquês tem um olhar de fazer perguntas profundas, às quais quase sempre me furto a responder (aos seus porquês eu não respondo, porque aos que nos guardam, nunca sabemos dizer nada). E, mesmo assim, mesmo com o meu olhar de murmúrio, sei que ele sabe de mim.

Num tempo mais antigo que o tempo, meu menino maior que o dia me preparava mingaus e sopas quando eu gritava fomes no seu ouvido, meu menino maior que a noite dedicava suas noites à minha insônia invertida, meu menino maior que o tempo me entregava seu melhor tempo. Sob a horta de estrelas e os pés de angico, levava-me em uma mão e trazia minha mãe sob seu outro braço. Eu era então apenas um pedaço da mãe e nem aos demônios, nem aos buracos-negros naquelas horas temíamos.

Muitas vezes precisei me perder do meu menino e até negá-lo, para poder delinear os nossos limites, decifrar as nossas fronteiras. Muitas distâncias tomei, do menino que me guarda, mas em mim sua guarda nunca arrefeceu. Quanto mais longe dele, quanto mais separada, quanto mais dissidente, mais as suas palavras e seus atos se acendiam no meu sangue. Que é que eu estava pensando? Para o meu governo, o menino é farol e fogo vivo.

Tenho carregado seu nome, impronunciável, pois não se pronuncia o nome da criação. Impronunciável, mas ardente sarça. Tenho feito força para segui-lo, um pouco mais além da inveja, admiração e tentativas. Eu talvez não seja digna, mas em sua morada, sou eu a entrar para proteger-me, mesmo sem dizer palavra. Porque sei, enquanto houver sua morada, haverá aconchego, acolhida. Enquanto ele me guardar, as dores que o mundo me dá não me despojarão de mim mesma. Enquanto ele houver, o meu avesso será sempre iluminado e nenhum buraco-negro me tornará o nada.

Aos pés desse menino sem paciência, sem idade e com a clarividência dos que vislumbram as auras, deposito estas palavras, como um adorno. Deposito ainda outra, um substantivo incomum – pai – palavra que é, sozinha, uma oração.

3 Comentários

  1. Jarbas Martins
    28 de abril de 2010

    carmen, esta tua crônica, com a ilustraçã de portinari, vou guardar num bolso onde guardo versos alheios.

  2. Tânia
    29 de abril de 2010

    Belíssimo texto! Li várias vezes. A ilustração, então, igualmente bela! verdadeira oração ao seu “menino”.

  3. Carmen Vasconcelos
    30 de abril de 2010

    Tácito tem muito bom gosto para as ilustrações. Foi ele quem escolheu Portinari. Quanto ao texto, grata pelas leituras e elogios.

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    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

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    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
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    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

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    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
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    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
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    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
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