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O meu carneiro em *MRA

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*Movimento Retilíneo em Azul
Amanhece o dia na capital sergipana e, diferentemente do azul de cada dia, o céu é invadido por um chumbo chuvoso raríssimo por estas terras.

Absorto, pergunto: Seria pela proximidade da lua cheia em vésperas de acontecer? Seria este o anúncio de tempos lúgubres afinadíssimos com o momento da política nacional? Seria? Seria? Seria…? Os questionamentos persistiam a cada espiadela em direção ao lume ofuscado pelo cinza atmosférico. Foi quando, em um instante de lucidez, me veio o desejo de respostas invisíveis que preenchessem o vácuo da cruzada de “serias?” em que havia me metido.

É de lascar! Logo eu que tenho como patrono São Dionísio e que não me interesso e tampouco mantenho minimamente constância nutritiva em alcançar respostas dadas pelas ciências zodiacais, que são muitas e variáveis em sua disposição farsesca de significados e significantes?!

Porém, confesso…, vez em quando, me pego de sobressalto, nos assentos de espera dos hospitais e das clínicas, folheando revistas e jornais sobre esse tema. Seguramente, eu logo me justifico, não há o que se fazer nesses redutos, senão folhear esses malditos diários e semanários.

Dessa vez foi diferente! Estava em meu pequeníssimo (quase inexistente!) escritório, quando não mais que de repente, parodiando o genial Vinícius de Moraes, me atacou um impulso de pesquisar sobre o meu serelepe carneirinho. Havia meses que não o procurava. Durante muito tempo, inclusive, pensei que o fugidio carneiro estivesse perdido, vivendo como um barbatão na docilidade selvagem e insociável do solo pedregoso do sertão seridoense e nos abismos que o diferenciam de seus irmãos astrológicos.

Para a minha perplexidade, e talvez por isso eu tenha deixado o carneiro astrológico de lado, o meu carneiro vermelho, sinantrópico e vilenado, encontrava-se em festa. Pulando pedras, subindo árvores, escalando rochedos, montes, serras…; enfrentando víboras, lagartos, cobras-de-chocalho, gaviões, onças, cavalos, homens e outros bichos inclassificáveis na botânica mundial. Tudo transcorria naturalmente na conturbada pluralidade existencial desse danado. Eu e meu signo estávamos confundidos no presente e alheios às profecias zodiacais…

Até que, em um momento de ócio, contaminado pelo céu recheado de escuridão e pela curiosidade mística, dessas que tomam o descrente por crente, decidi desafiar os astros com uma única finalidade: provar aos deuses dessa ciência o charlatanismo dos/as arautos/as oraculares aqui abaixo da linha de Quito.

E o que encontrei? Risos! Que o meu idílico carneiro, esotericamente, estará em movimento retrógrado mais uma vez. Como já havia dito antes: o meu carneiro vivia o êxtase do encontro! Estava em festa! Não cabia recurso ao retrocesso!

Fiquei irritado! Movimento retrógrado, se existir, é na casa do alho! Será que não existe impulso libertário nesse remédio zodiacal “diário”? Eu mesmo descortino e trago à luz alguns outros movimentos, desde dos artísticos-culturais aos científicos, espirituais, políticos… rapidamente! Será que em algum átimo de bisbilhotice esotérica, saberia eu que o meu carneiro estaria pastando em campos abertos como o céu de brigadeiro para os condores de aço, a léguas da fronteira do retrogradismo blasfêmico tecido pelo fio zodiacal? Que raios era esse poder dos astros de fazer meu carneiro vermelho de repente parecer tão cinza?

Bom! Essa chaga perdurou alguns minutos, circulando talvez por completo o feroz e incansável marcador do tempo. Foi quando, já corrompido pela urdidura dos astros e contaminado pelo cinza da hora, recebo uma mensagem eletrônica perquirindo-me se gostaria de conversar um pouco.

De pronto, respondi: “Claro! Estava escrevendo uma pequena crônica sobre esse tal ‘movimento retrógrado’ de que já havia falado contigo e comentado que está me desapascentando o carneiro!”. E a minha melhor Amiga/Mulher/Companheira me respondeu, mesmo estando a quilômetros e empantufada de tarefas relativas ao seu ofício: “Ei, não tem movimento retrógrado nenhum!!!”. E de súbito completa: “Vixe!!! Tem sim!!!” Subiu um frio da boca da barriga ao espinhaço circunscrevendo toda minha jurisdição nervosa! E ela continua: “Mas não no sentido negativo!!! Você está voltando ao seu verdadeiro EU!!!!!!”. Assim, cheio de exclamações, a Brucha apazígua e acaricia a minha pele coronária, sabendo ser Ela a única tecelã a fiar e desfiar movimentos que me protegem no calor e que me agasalham no frio.

Volto ao horizonte e o céu me olha em MRA (Movimento Retrógrado em Azul). E meu carneiro saltita vermelho como o era nas épocas ancestrais.

Com a colaboração de Christina Bielinski Ramalho

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Italo de Melo Ramalho

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