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O mistério do verde nasce

(romance de Ana Cláudia Trigueiro de Lucena)

Por José de Castro*

Li de uma sentada só este romance da escritora Ana Cláudia Trigueiro. Este é o quarto livro da autora de “Em um outubro rosa” e do romance histórico “’Francisca”,  ambientado na cidade do Natal de 1945, segundo lugar no Prêmio Literário Rota Batida.  O Mistério do Verde Nasce é o tipo de livro que a gente pega e não quer largar enquanto não percorrer toda a saga da pequena Maria, até o seu desfecho emocionante, do qual não farei spoiler.

Foi uma leitura que me emocionou, pois a autora conseguiu construir uma narrativa  rica, baseada em muitas pesquisas, na qual se sente o drama da vida de cada personagem, seus sonhos, suas frustrações, o superar de desafios. Vários cenários e épocas, desde o vale do Ceará-Mirim, em retrospectivas aos anos 1800, até a Inglaterra do período da Revolução Industrial e a acontecimentos contemporâneos ao século XX.

Ana Cláudia Trigueiro consegue contar uma boa história e o faz com brilhantismo, pois vai construindo pequenos “pontos de virada” (plot points), que trazem sempre um novo alento para o desenrolar da trama. O leitor sempre será surpreendido por uma nova personagem, mesmo que já exista um certo contorno pré-anunciado, pois ela consegue trazer ares de novidade e envolve-nos com uma técnica simples: a arte de deixar as personagens interagirem e vivenciarem os fatos de um jeito natural, inclusive com um linguajar típico de cada um. E a riqueza de certos termos regionais como “antojo”, “juízo incriziado”, “farnizim”, “espinhela caída”, dentre outros.

Interessante a maneira como as dimensões de espaço-tempo se cruzam e entrecruzam, vão e voltam e tecem uma narrativa agradável, uma vez que o livro é construído em técnica de flash-back e constrói-se em cima de idas e vindas de personagens, sempre em busca de suas origens.

Na verdade, uma das chaves do prazer da leitura encontra-se no fato de a autora nos contar uma história recheada de várias outras, com diferentes e cativantes narradores, como faz a personagem Cosma. Consegue dar vida e ambientar no sertão personagens bíblicos que caçam tatu peba, tejuaçu e até comem cozido de caititu. E reconta clássicos como a história de João e Maria, com uma descrição impagável da casa da bruxa, toda confeitada com as delícias da culinária nordestina, a exemplo do tapete de talhada de bolo de macaxeira com coco.

Maria, que costura toda a trama em suas várias fases de vida, cativou-me totalmente. Mas ela não fica sozinha nessa galeria de personagens que conta com Emma (Emmas, na verdade) e com uma apaixonante Feliza, tão carismática a nos relatar histórias de sua África e a repassar sábios ensinamentos de Olurum: “cada povo deve ter sua liberdade de viver onde quiser…”

A autora consegue mostrar como as famílias se formam e se dispersam e voltam a se reencontrar ao longo das gerações. Leva-nos até a Inglaterra, fala de Liverpool, Manchester e nos mostra um pouco da luta da mulher para fugir dos estereótipos de casamentos arrumados e para a busca da felicidade a partir de sua liberdade de escolha, fora dos combinados e das conveniências da época.

Há todo um fascínio na descrição do cenário do vale do Ceará-Mirim, o que me transportou até aquela época dos barões do açúcar e me fez até sentir o doce da cana e da rapadura saboreada pelas personagens. E também me despertou o desejo de ir para o alto da colina, e contemplar o pôr do sol com os mesmos olhos de amor de Emma e Marcello.

O segredo de um bom romance é ter-se uma boa história para se contar e saber fazê-lo de maneira que, ao final, o leitor fica com aquela vontade de que o enredo prossiga, que não tenha fim. O Mistério do Verde Nasce é assim. Uma história de amor, contada com amor.

As ilustrações feitas pelo médico Edmar Cláudio também contribuem para a leveza da obra.

Por isso, e por outras qualidades, vale a pena empreender essa viagem pelas páginas do livro, o qual me pareceu que, se roteirizado, poderá resultar num belo filme. Tudo é muito cinematográfico.

A autora e a editora CJA estão de parabéns e mais ainda a literatura potiguar que se enriquece com essa nova publicação. O Verde Nasce nos faz amadurecer a vontade cada vez maior de sermos leitores apaixonados.

Que venham outras obras assim, envoltas nessa magia gostosa que nos transporta para além de nós mesmos e nos leva a querer desvendar esse mistério que se chama leitura e escrita. O mistério e o encantamento que existem num bom livro.

 

*(José de Castro, jornalista, escritor e poeta)

 

O MISTÉRIO DO VERDE NASCE, 167 p, ilustrado.
Ana Cláudia Trigueiro de Lucena
Ilustrações de Edmar Cláudio Mendes
Natal/RN: CJA, 2018

 

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Comentários

1 comment

  1. Marcio 10 abril, 2018 at 08:31

    Excelente “Feedback” sobre o livro, me encantei com a descrição dos detalhes que vivenciei ao ler o livro “de uma sentada só”. Parabéns ao amigo!!!

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