Crônicas e Artigos

O novo velho Brasil e A Peste de Camus

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Ilustracão: Joey Guidone

Gosto de livros pequenos!

Não, não pensem que sou um leitor preguiçoso. Leio com fôlego e não me assustam as obras volumosas.

Mas tenho um apreço especial por breves livros, aqueles que aparentam dizer pouco e abrem-nos os olhos.

Esse é A Peste, de Albert Camus.

O livro inicia-se seco, apresentando a cidade de Oran como um lugar “sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro das folhas. Em resumo, um lugar neutro”.

Uma cidade, portanto, entregue à normalidade, um lugar onde “as pessoas se entediavam e se dedicavam a criar hábitos”.

A normalidade se quebra com a chegada dos ratos.

Estes trouxeram a peste e com a peste veio a morte, que, como sempre, mostra-se superior à vida… não sem resistência: uma luta inglória, mas sempre resistência.

Alguns críticos associaram a fábula a uma metáfora do nazismo.

Embora faça sentido, a profundeza do discurso transcende a isso. Atravessa os mares da existência humana, vence continentes e chega ao Brasil.

Aqui nesta terra modorrenta, acomodada a viver de meias verdades, os ratos também ressuscitaram a morte e exigem de seu povo que se levante em resistência.

Em Oran, um dos protagonistas dessa resistência é o Dr. Rieux que se entrega de corpo e alma ao socorro dos moribundos.

É dele também o diagnóstico certeiro de que o bacilo sempre existira na cidade, vivendo adormecido por décadas para despertar furioso a partir da invasão dos ratos.

É um fato.

Aqui em nossa província neocolonial dormiu por décadas o bacilo do radicalismo, do fascismo, da intolerância, do desrespeito, oriundos de um elitismo classista, que veio à tona agora, quando as forças dominantes, amedrontadas com uma crise que, como a peste, atravessa os continentes, ameaçando privilégios e quebrando o equilíbrio de uma normalidade cômoda e vantajosa.

Nesta hora é que os ‘ratos’ resolveram acordar o vírus, que se alastra em progressão geométrica, incitando ódios, discórdias e lançando nuvens de poeira a confundir seu povo.

Gritos de “vai pra Cuba”, “petralha”, “coxinha”, “esquerdopatas”, “anta”, “luladrão” e tantos mais se avolumam como nuvens de poeira a esconder o verdadeiro motivo de que a peste foi semeada para proteger os poderosos e salvaguardar privilégios.

Vivemos neste momento em uma pátria sitiada, cerceada por um muro invisível que tende a calar e encalacrar a voz da resistência.

A peste nos dominou e cabe a cada um de nós criar focos de resistência, para suplantar a quarentena e reconstruir o sonho de uma pátria livre e feliz.

Porque, como diz Rambert, um dos integrantes do mutirão na cidadela da morte:

Sempre “pode haver vergonha em ser feliz sozinho”.

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Edilberto C.

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