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O olhar que resiste

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“Morar tão de leve/morar breve em teu olhar/onde Deus esteve.” (Jarbas Martins)

 

ERA UMA CARTA, nada mais. Uma daquelas cartas que vinham em envelopes pobrezinhos, quase transparentes, com margens em verde-e-amarelo. Coisa dos anos 70/80. Tudo já tem as marcas do tempo e somente o teu olhar resistem minha memória. Era um olhar de gata, repuxado diagonalmente para cima. Os cílios negritados, como as palavras que te enviava naqueles dias. Uma delas é palavra que estranho hoje: “amor”. Fico ainda mais perplexo quando recordo as repetições desarrazoadas: “Amor, amor, amor…”. Havia uma foto, eu me lembro. Havia mais algo. Esqueci. E rasguei, amor, amor, amor…

**

O TEU OLHAR ainda resiste nos escaninhos da minha memória. Nada mais intimamente erótico do que aqueles olhares que trocávamos às três da manhã da noite de Natal de um ano qualquer. Chico e Tom cantarolavam na vitrola de um apêlá adiante, uma solitária e forte luz explodia no quadro da janela, e os dourados anos escorriam como as lágrimas derramadas em nossas faces. Estávamos nos protegendo da chuva. Da marquise também rolavam águas, as cascatas brilhavam diante da iluminação do poste, ao caírem do concreto duro e acinzentado. Eu tinha você no colo, como se reconstituíssemos a Pietá de Michelangelo. Adormecemos naquele beijo. Quando acordamos, já não estávamos juntos. Trinta anos haviam se passado. O teu olhar, apesar disso, continua na minha mente, assustando-me e trazendo um prazer retroativo. O teu olhar, aquele olhar.

***

TAMBÉM A CHUVA havia passado. No entanto, aquele teu olhar, cheio de uma suave malícia, ainda persiste e me atinge como uma seta envenenada. Algo ali que ainda não sei explicar. No passado, eu me entregava àquela hipnose, quando tu te entregavas aos meus braços. Engatinhando pela cama, o teu bote era certeiro e sutil. Não havia escapatória. Somente era possível a dor de amar por sobre escombros que nem percebíamos. Não sei se algo foi reconstruído, após tantos anos. Acontece que novamente tremi, quando aquele olhar ressurgiu, real, enfático, agudo, em meio às rotinas e às retinas do meu dia frenético. Aquele teu olhar, esse teu olhar…

TagsOlhar
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Lívio Oliveira

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