Literatura

O operário-padrão

camera

Ali mesmo naquele banco de praça, depois de cinco minutos de conversa, como dois perfeitos estranhos, ele se pôs a me contar sua história, muito distintamente:

– Eu tô na batalha, sabe? Veja só se não foi uma injustiça. Trabalhei naquele prédio por cinco anos, dois meses e vinte e sete dias. Sabe o que é isso? É claro que não são cinco dias, cinco semanas, cinco meses. São cinco carnavais, minha senhora! E todo dia eu e ali, pontualmente, firme e forte, dando duro, de sol a sol, de chuva a chuva, com minhas míseras folgas e férias. Só faltei duas vezes durante todo esse período: uma vez primeira quando caí de dengue e não tinha a menor condição de sair da rede e outra vez quando fui ao enterro da minha tiazinha querida, mesmo que uma mãe pra mim.

Fez uma pausa, olhando para o céu e se benzendo. Ia se empolgando cada vez mais com a história e eu também. Ao redor, numa manhã qualquer, a vida acontecia normalmente. Eu permanecia em silêncio, à espera.

– Eu era o melhor porteiro que um prédio podia ter. Eu era a discrição em pessoa. Sabe o que é isso? Vi muita coisa ali e nunca fui de comentar nada com ninguém. Vi doutor chegar e estacionar o carro todo torto, se arrastando rumo ao elevador morto de bêbado, às quedas; vi madama muito fina receber boy da mercearia com garrafão de água e ficar trancada com ele horas a fio; vi filhinho de papai metido a machão se desmunhecar em festa na piscina; vi mocinha metida a santa receber roda de amigos e fazer a maior bandalheira quando os pais viajavam… O que eu vi de marmota, de manguaça e de miséria, olha, não tá no gibi.

– E eu só pensava, sabe, dona: e daí? O que eu tenho com isso? A senhora sabe que nesta cidade a maledicência tem longa tradição. Os outros funcionários do prédio chegavam junto querendo fofoquinha, disse-que-me-disse. E eu ali, um túmulo, impávido, sempre calado. Nunca comentava nada. Perfeito profissional. Sabe o que é isso?

Ele parou de novo, para tomar fôlego antes de prosseguir na narrativa. Eu olhava distraída a praça em frente, com seu movimento rotineiro, observando o mundo acontecendo e querendo reter aquele instante. O homem que vendia água de coco na parada de ônibus; a mulher que falava risonha ao celular; o rapaz bonito que sumia com passo acelerado; o senhor que conversava com seus amigos imaginários. Todos ali, com suas intensidades muito particulares. Que preocupações e anseios passavam por suas mentes? Qual deles tramava um plano em segredo? Qual deles tinha um coração partido? O sol nas árvores. O vento nas saias e cabelos. Os automóveis nas ruas. Tudo tão presente e igualmente tão fugaz… Eu olhava ao redor com ar distraído mas ao mesmo tempo aguardava, muito atenta, o desenrolar da história.

– E eu era pau pra toda obra, sabe, dona? Muito mais que um porteiro. Todo dia tinha um servicinho extra pra se fazer e que nem era da minha alçada. Nunca neguei préstimo. Vamos lá, claro, é pra já! Ia mudar o gás. Ia trocar pneu. Ia apaziguar briga. Ia ajudar na mudança. Ia salvar o gato. Telefonar, consolar, consertar, mandar chamar, opinar, tudo eu fazia ali.

– Não à toa, modéstia à parte, o povo me queria bem. Principalmente as donas mais antigas. Volta e meia me traziam um bolinho, um presentinho, um agradinho, uma palavra de carinho. Sabe o que é isso, ser querido? Pois eu era. Em época de Natal, eu me refestelava com tanta comida.; na Páscoa, era aquela montanha de ovo de chocolate, dava até abuso, eu acabava distribuindo por aí. Eu era, sim, muito querido.

Nova pausa. Eu sentia que o clímax se aproximava. Não me contive:

– Até que…

– Até que um dia chegou a Graça pra trabalhar no 301. Sabe o que é uma pessoa fazer jus ao nome? A Graça era uma gracinha! Uma magrela de olhos grandes, toda sonsa, toda uma graça. Mal chegou e foi logo me dando o maior cabimento, como quem não quer nada… Na primeira oportunidade descia e vinha prosear asneira comigo. No começo eu pensei, muito friamente, essa alma quer reza, não tô nem aí. E me fiz de machão, fingindo indiferença. Mas ela tinha um jeitinho, sabe…

– Sei…

– Pois então, depois de umas semanas, não deu pra resistir. A carne é fraca, né…

Calou-se de novo. Cutuquei seu braço, faminta de curiosidade:

– E aí, homem de Deus?

– E aí que logo justamente o síndico, um viúvo chato pra cacete, flagrou a gente no estacionamento, entre os carros, como dois animais.

– Eita!

– Pois é. Foi aquele auê. Convocou reunião de condôminos de urgência para relatar o acontecido e comunicar minha demissão. Acontece que umas treze senhoras vieram eu meu favor. Foi uma comoção geral para que eu permanecesse como porteiro-chefe. Onde encontrariam outro operário padrão como eu? E, afinal, quem nunca errou nessa vida?

– Quem nunca?

– Fizeram votação e eu fiquei por maioria unânime.

– E a Graça?

– A Graça, coitadinha, dançou.

Novo silêncio.

– Mas e então?

– Então acontece que em poucas semanas chegou a Aurora pra trabalhar no 202. De novo a porra do síndico, com perdão da palavra. E aí não teve mais jeito…

E assim concluiu sua história:

– Agora eu tô na batalha, procurando emprego de novo. Sabe o que é isso?

E lambeu os beiços, vendo passar uma morena na calçada em frente.

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Cellina Muniz

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