O orquidário do Potengy e suas tendas

Carlos Gurgel
Colunistas

Natal é uma cidade efervescente, de inúmeras portas geográficas, noturnas e culturais, ajuntamento de tristes faces em comunhão na feitura da própria história provinciana, na vazante de um rio que chora e pede perdão, na janela por onde uma lua enamorada reina

Tudo aqui é transtorno e quietude

Natal_antiga

” foi de noite por sobre a dobra do amor, que se anunciou que a temporada de tantos e irrefreáveis festejos tinha acabado de chegar”

a opulência das praias, mar, lua, ao redor dos coqueiros, anônimos passos e da convergente escolha pela cidade de inúmeras pessoas de vários estados e nacionalidades, faz de Natal, uma cidade efervescente e de inúmeras portas geográficas, noturnas e culturais.

essa cidade é na sua essência um abalroamento de tristes faces tecendo a sua história como uma capitania provinciana e repleta de dengues pelos marítimos marujos que punham a bússola entre o cais e o porto e se danavam à procurar pelas meninas alvas e de tão belo busto e olhar. essa febre, eloquência por tudo que ao pensamento e desfiles dos mastros empoleirados da cidade, trespassam seus quintais e sítios, faz desse tempo, uma exploração diuturna por tudo que estivesse relacionado ao corpo de uma nova e irresistível paixão.

tudo aqui é transtorno e quietude. tudo aqui espelha a clara cara de uma beira mar. tudo, absolutamente tudo, tem o crivo das sombras dos coqueiros, da lama que carrega consigo o cheiro forte da maresia, como a dizer para os habitantes e visitantes que a magia de um lugar ela se revela na janela por onde uma lua enamorada reina. sim, o trevo a que se destina a rede estendida na varanda de uma casa pertencente ao silêncio noturno do mar, dessa brisa de tanto tesouro, de tantas lendas e amores, ele todo está refém de uma constelação de estrelas, sargaços, caranguejos e muriçocas.

Natal_Rio Potengi.2

Os marinheiros são como vultos, a fundar a dispersão da preguiça. da costa por onde o ontem andou sem saber a razão de tanta beleza que se espalha entre o Forte e o Farol.

vê-se ao longo da costa a corrente de uma escavadura de tantas e enormes pescarias. sim os marinheiros são como emblemáticos vultos, a fundar a dispersão da preguiça. da costa por onde o ontem andou sem interesse de saber a razão de tanta beleza que se espalha entre o Forte e o Farol. tudo, diz a distância onde respira o horizonte das costas dessa beira de praia, são como estrelas do mar, cunhadas por sobre o orifício de tantos biquínis e flertes. os refletores vindo do inferno da Barreira, rascunham como uma escuna, a escultura de um tempo de tanta fascinação e luar.

lá pra longe era onde ia dar o centro da cidade todo curvilíneo e amado pelos seus habitantes desprovidos de poesia e da sagacidade de quem não sabe de cor, a vazante de um rio que chora e pede perdão. saber por onde começa a esperança de uma teia infestada de episódios, forquilha de tantas circunstâncias sociais, de um cabedal procurado pela titulagem rasteira da Ribeira repleta de igrejas e farmácias, era como suplicar pela enxurrada da tribos dos boçais e tragicômicos cozinheiros espalhados pelo porto e por todo o cortejo de uma coloração noturna, como se fosse uma canoa tentando persuadir a calmaria de um boêmio sem fala e sem destino.

lá vem o trem, como uma lavanda rara que captura, esconde, rapta, sequestra a alma do povo da cidade. foi de noite por sobre a dobra do amor, que se anunciou que a temporada de tantos e irrefreáveis festejos tinha acabado de chegar. era um medo constante que se debruçava na soleira de uma casa de recurso, de uma birosca familiarizada com a crescente febre de ratos, de tantos e inqualificáveis quadrúpedes que seriamente atacavam as senhoras e crianças.

no mais tardar, sentenciou esse medonho sonho, em uma semana essa cidade receberá um novo carregamento de pílulas, flashlight, creme de barbear, incensos, balas de cereja, e da quantidade enorme de livros do segundo grau. sim é preciso cuidar das crenças e das padiolas. cuidar de tudo que foi esquecido pela igreja e pelas pontes abandonadas. quem sabe, assim respirando, a cidade encontrará seus chinelos e uma chuva de sorrisos espalhados pela sua periferia e portão.

 

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Carlos Gurgel

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