Geral

O Pastorador

andando

Quando fui chegando à farmácia, ainda manobrava para estacionar, já o percebi de longe, sentado num caixote de madeira.

Ele também me observava à distância; preguiçosamente levantou-se e veio vindo, ria ou tinha uma coisa que exalava simpatia, alegria – algo desses parentes próximos.

Era de meia idade, magro, boa estatura, barba rala, parte já embranquecendo para o cavanhaque e a caminho das têmporas, e os cabelos desgrenhados, apoucados.

Entrei no estabelecimento e antes de um quarto de hora estava de volta à calçada.

Aí o vi melhor, tinha os olhos muito abertos, com o branco tomando-lhe quase toda a expressão, bem mais do que se esperar para aquela claridade.

Um jeito de ser alegre com certo exagero, tanto que lhe franzia a testa e pregueava o canto dos olhos, marcadamente. Pode-se dizer que na mímica havia simultaneamente alegria e preocupação.

Pensei comigo, mais um, como os atraio, ou sou atraído por eles, constatei. Tem sido assim, e foi sempre, a vida inteira.

Mas, o que agora me chamava a atenção era seu colete. De um plástico grosso, em cores cintilantes – vermelho, amarelo e verde limão.

Como já estávamos bem próximos, arrisquei a pergunta: E aí, está trabalhando no trânsito?

Não, estou só fazendo uns biscates. E ajudando os carros aqui. Uma vez até pensei em ser guarda de trânsito, mas não deu certo. O pessoal me ajuda.

Senti bom o tom da conversa e emendei indiscreto: onde você mora? Eu? Sim… Eu moro… Moro na rua… Por aqui mesmo. Mas já morei em muito canto bom. Minha primeira mulher era dentista. Huuum… não dá pra voltar pra ela? Não, aquilo ali já era, disse em cima.

Manobrava pra sair, a gorjeta já havia caído, ele voltava pra perto do caixote, e satisfeito acenava.

Peguei a via e mais adiante tive de fazer um balão, o que me obrigava de novo a passar em frente à farmácia. De longe vi que continuava gesticulando, acenava com as duas mãos, no alto dos braços longos, que também se cruzavam, e por vezes abria os polegares, sem contar o sorriso fixo, carimbado.

Como se estivesse se despedindo de um velho amigo.

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