O (triste) poder do dinheiro

Sheyla Azevedo
CrônicaDestaque

Um sujeito olha para a mulher e diz, “moça, se você inclinar novamente esse ventilador, eu vou te bater, quebrar essa tua mesa; tu (sic) não está pagando nada, eu estou pagando dez mil reais”. Presenciei essa ameaça recentemente, entre uma artesã e um comerciante, num grande evento comercial que acontecia na cidade. Ele alegava que o enorme ventilador que servia para aliviar o calor dos passantes e potenciais clientes, estava tirando a visão do estabelecimento dele. Irritado por não estar vendendo como gostaria, ele descontou as frustrações na posição do ventilador e na artesã, cujo maior pecado era estar ali próxima a ele.

Moram ali naquela ameaça, dois pontos que me chamaram a atenção: o poder do dinheiro e o machismo. Aliás, as ameaças feitas a ela não tiveram nenhum efeito reprobatório contra ele, por parte da coordenação do evento. Haja vista que logo em seguida, insistiram para que ela mudasse de posição e ele próprio retirou o ventilador do corredor, olhando para ela ironicamente e dizendo: “tudo resolvido”. Ele saiu ileso, seguindo em sua arrogância estéril, ressecando o ambiente com o poder desse dinheiro que oprime e no fim das contas não deixa, de fato, ninguém feliz.

Nem sempre a ameaça ou o poder são tão evidentes. Muitos de nós já sentimos na pele o poder subjetivo do dinheiro, aquele mais silencioso. Mas o percebemos quando uma moça bem vestida fura a fila do banco e é prontamente atendida por um gerente subserviente e enforcado em metas; ou um carrão desses SUV´s passa dando um fino num carro mais popular, no meio da avenida.

Eu não estou dizendo que o dinheiro é ruim. Mas pode ser muito nocivo em sua utilização, a depender de quem ele escraviza. Às vezes é só um pedaço de papel; noutros é uma matilha de malas abarrotadas de dinheiro oriundas do propinoduto, que alimenta a cobiça, a corrupção, o clientelismo e acaba por influenciar a gritante desigualdade social. Cenário que representa tão bem o que vivemos no nosso país nas últimas décadas. Ou seria nos séculos? O dinheiro pode também ser uma capa protetora das fragilidades emocionais; a casa é muito bem decorada, o pet tem coleira de quatro mil reais, a namorada é subserviente e uma espécie de secretária de luxo, do escritório à cama e, mesmo assim, o sujeito é triste e vazio. Sente falta do colo do pai e escraviza a mãe em atitudes infantilizadas, mesmo já perto dos 40 anos.

O poder do dinheiro é evidente quando sabemos que bancos conseguem perdão de dívidas bilionárias. Herdeiros de fortunas não pagam impostos. Empresas recebem empréstimos públicos astronômicos e parte desse dinheiro vai para financiar campanhas em caixa dois.

Sempre existirá pobreza e riqueza. Porém, não vivemos no nosso país somente uma pobreza material (para muitos, e como no caso daquele comerciante, uma enorme carência de hombridade). Vivemos uma extrema desigualdade de direitos sociais, aliada a uma pobreza de gentilezas e respeito ao próximo. Vamos nos inundando num mar esverdeado de dinheiros que não constroem nada. E, sinceramente, não tem grand finale para isso. É tão somente, triste. Muito triste.

Share:
Sheyla Azevedo

Comentários

Leave a reply