O poeta e eu

9 de janeiro de 2010 às 12:49 - Comentar
Por Laurence Bittencourt

Tácito mandei esse post para Jairo que publicou no blog dele seguido de um post scriptum. O PS dele está em negrito, como não soube colocar aqui, faça isso, por gentileza. Remeto agora os dois para o SP. Segue:

O poeta, escritor e publicitário pernambucano, residente em Natal, Jairo Lima, assim como eu, acredita que o trabalho intelectual é algo superior ao uso do trabalho sensório per si. Vou tentar explicar, antes que me acusem de alguma obscenidade, mesmo que quem o faça não saiba que está ofendendo mais a si do que a mim. Aliás, foi Freud quem disse certa vez que quando Pedro fala de João, está falando mais de Pedro do que de João. Deu para entender? Não? Então, deixa pra lá, paciência. Na verdade, isso é outra história. Deixemos Freud, e voltemos a Jairo.

Jairo é fã de música erudita. Eu também. As identificações param ai. Exemplo? Jairo ensinou música erudita, eu não. Bom, mas música erudita obviamente não é a mesma coisa que música popular, que é o que eu quero falar aqui. A música popular é feita ou pode ser feita (composta, para usar o jargão) por qualquer analfabeto musical, já a música erudita não. A musica erudita é música construída com base no refinamento intelectual, conceitual, faz uso da cultura intelectual e da lógica. Sem lógica, não há musica erudita, sem o uso do intelecto não há musica erudita, por isso ela é superior. Já a música popular, não. Essa é intuitiva e vive do sensorial. Freud explica, mais uma vez.
Mas vejamos outro exemplo: o rock por exemplo, é sensório puro. Qual a diferença entre a gritaria musical do rock and roll e a gritaria de Hitler discursando? Nenhuma. Ambos fizeram sucesso. Alguns até ainda dizem que fazem. O problema é que não há na “mensagem” deles apelo ao intelecto, não há apelo ao refinamento, que precisa da lógica, logo, a cultura do rock and roll e os discursos de Hitler são não só anteriores a cultura intelectual como inferiores. Deu para entender? Se não, então é melhor desistir e continuar tocando a sua cultura inferior. Ou se preferir, com o seu rock and roll.

Estou dizendo isso, para tentar raciocinar porque que uma música baiana que não nos diz absolutamente nada, consegue vender milhões, e levar multidões atrás de um trio elétrico e a 3ª sinfonia de Beethoven que é uma das coisas mais geniais que alguém já compôs, não conseguir absolutamente nada em relação à massa? Por quê? Há outras músicas eruditas, óbvio, mas fiquemos nessa do nosso Beethoven.

A música popular nos pega não pelo intelecto, e sim, pelo estímulo imediato. Sem mediação. Já a música erudita exige análise, conceituação, exige trabalho mental.

A musica popular não exige nada. Por isso que alguns – Jairo e eu, por exemplo -, acham que a música popular é pura alienação. E é. Mas não no sentido marxista, bem entendido, porque a música erudita é refinamento, e marxismo não é. Sei que é assim, e não quero explicar isso agora, talvez no futuro.Talvez.

O certo é que a música moderna acabou com a música erudita. Entre os assassinos se encontra também a música erudita moderna. Jairo explica. Se quiser saber por que é só marcar uma prosa (erudita) com Jairo Lima no Bar Papo Furado que fica no Mercado de Petrópolis, na Hermes da Fonseca. Você irá sair de lá, com cancha de perito em musica erudita. Pode se gabar.

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Comentário de Jairo Lima, do blog Papo Furado
http://www.papofurado.org/

• Querido e corajoso amigo, vc comprou uma briga sem tamanho com um bando de analfabetos musicais que, em nome do politicamente (argh!) correto afirmam candidamente que os sapos são iguais aos navios porque são vistos sempre próximos à água. Moliere, em frase lapidar de sua peça “As Sabichonas”, fala dos que, para se mostrarem iguais aos gênios, imitam-lhes o modo de escarrar. Os shoppings intelectuais estão cheios destes cuspidores que, falseando a mais elementar verdade, tiram do povo a possibilidade de acesso aos bens culturais superiores (superiores, sim, vocês podem estourar de raiva, mas são superiores, sim) sugerindo que a arte popular é tão importante quanto a suposta, para eles, arte erudita. Ou que, simplesmente, não existe diferença entre Meu Limão, Meu Limoeiro e a Tocata e Fuga em Ré. A tchurma confunde, deliberadamente, arte, artesanato, ritos sociais tradicionais, indústria do entretenimento, o caralho a quatro; botam tudo num mesmo saco e sentam em cima. São os defensores da “cultura” este tudo que é nada. Assim, é só deixar o povo como está. Pobre, explorado, submisso e, sobretudo, ignorante. Afinal, para que se esforçar se futebol é arte, jogador é herói, motorista de carro de corrida é gênio e Michael Jacson foi o mais importante fenômeno artístico do século passado? Ou seja: para que estudar, ou fazer qualquer outro esforço intelectual se já nascemos institivamente habilitados para o usufruto das mais ricas benesses do espírito? E esta turma, reaça e conservadora, pasme, posa de esquerda. Combine isto com governantes analfabetos e o resultado é a consagração institucional deste abestalhamento abissal que nos retira da penumbra contemplativa do teatro para a vulgaridade ensolarada e participativa do circo.

P.S. Quer fazer um teste? Pergunte a um abestalhado destes, sem dar tempo para ele consultar a Wilkipedia o que é uma fuga. E depois me diga. (JL)

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    • Daniel Menezes: O direito autoral é a apropriação individual de conhecimento coletivo. Tipo assim, a sociedade trabalha para promover a cultura objetiva e depois, alguém, por um impulso social, produz algo. Afinal, uma sociedade sempre gera as questões que pode responder, já dizia o barbudo. Este "inventor" (expressão burguesa) não produz a "novidade" sozinho e nunca partindo do zero. Depois de feito, diz que aquilo é dele. Só muito aparato estatal para empurrar isso pela goela. - Pirataria
    • Ednar Andrade: Boa noite, Marcos, amigo, querido. Também acho maravilhoso reencontrá-lo. Já sentia a tua falta aqui neste espaço. Saudades. Eu sou, tu és, Rio corrente. Não demores. Beijos, querido. - Fio de luz
    • Regiane de Paiva: Não sei dizer o quanto este texto me emocionou. Aqui sinto a literatura e a vida. Cada metáfora ou descrição de um recorte da memória provoca uma sensação de nostalgia e de melancolia. Llosa afirma que nada ensina melhor que a literatura a ver a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-la como uma manifestação da sua múltipla criatividade. Desta forma, entendo que este texto é literatura pura! Literariedade, primor e encanto! Beijos in..... marido! - Da solidão
    • Regiane de Paiva: O título é a extensão do texto. A fala pueril dentro de um contexto como a política remeteu a uma bela reflexão. À medida que eu ia lendo o texto, ouvia uma voz de menino atrás dos meus olhos, parece que o menino conversa fitando o leitor... Texto maravilhoso! - Política de menino
    • Jarbas Martins: UM HAI-CAI PARA FERNANDO MONTEIRO A noite, com gesto brusco,/ roubou um naco da tarde/ e se esgueira pelo subúrbio. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Fernando Monteiro, sim. E o pouco que li de António Lobo Antunes. - As asas da noite que surgem (1)
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