O povo pensa

3 de agosto de 2010 às 21:56 - 2 Comentários
Por Marcos Silva

Plinio e demais amigos e amigas:

Sair da visão romântica de povo é tarefa secular entre nós.
Sylvio Romero começou a fazer isso no século XIX: seu povo é luso-afro-indígena. Os argumentos racistas (raças superiores e idéias semelhantes) não o impediram de assumir que a identidade real do Brasil era aquela, recuperando cantos e contos populares que, depois, Câmara Cascudo editaria.

Junto com ele, Machado, claro: que dizer do Brasil que as “Memórias póstumas de Brás Cubas” nos revelam? Nesse grande romance, a história é uma mentira que começa com o defunto narrador e as alegorias clássicas carnavalizadas (grifos virando pulgas) e se prolonga no sobrenome que oscila entre o fundador da cidade de Santos e o fabricante de banais barris.
Depois deles, Cruz e Souza: a linda melodia dos versos nos diz o tempo todo que um preto pode fazer a poética dos brancos ir além do que já é. Nunca foi perdoado por isso – e ainda tinha a ousadia de seduzir a mulherada ao redor, escrever bem e ser tesudo!
Euclides da Cunha retoma a charada de Romero: os mestiços desengonçados são gigantescos na luta de Canudos e na sobrevivência cotidiana dos sertões.
Lima Barreto desromantiza tragicamente o povo: os pobres passam fome, são humilhados, tentar retomar sua face romântica é se condenar à morte – triste fim de Policarpo.
E tem Monteiro Lobato: adeus aos índios perfeitos, diante de caipiras reais que não são daquele jeito por motivo racial e podem mudar de rumo se tiverem saúde e capital.
Do Modernismo pra cá, as coisas até parecem mais evidentes: povo que devora e se devora – nesse aspecto, Macunaíma é uma versão aperfeiçoada de Oswald de Andrade.
Penso que o povo não é um dado. Pode chegar ao nível de vir a ser. Queremos que seja?
Somos também elite, gosto de nós mas temos companheiros de elite que são uns horrores.
Retornando ao Modernismo: em Mário de Andrade e em nosso Câmara Cascudo, o povo pensa. Aquelas danças e aqueles cantos são saberes – gosto muito da noção de Literatura Oral que nosso Cascudo desenvolveu. Temos analfabetos ou semi-analfabetos de gênio, com bibliotecas na cabeça – poesia e música populares possuem belos exemplos disso: uma letra de Gilberto Gil falava de analfomegabetismo (alfa/ômega, o todo) somatopsicopneumático (pneuma, alma).
O povo real é muito desprezado pelas elites babacas por ser feio e mal-cheiroso. Nem sempre (ou quase nunca) as elites babacas são belas e bem-cheirosas – já prestaram atenção nas caras do casal Maluf? Mas existe beleza no mundo, às vezes vindas de um Patativa do Assaré ou um Nelson Cavaquinho, de uma Clementina de Jesus ou de uma Lia de Itamaracá.
Acho legal termos clareza de que, para o mundo melhorar, contamos com pouquíssima coisa mais ou menos pronta. A maior parte do vir a ser depende de mão na massa.
Temos tesão pra isso? Sem tesão, vira burocracia.
Abraços afetuosos:

2 Comentários

  1. Raimundo Paulino
    4 de agosto de 2010

    Parabéns prof. Marcos, pela excelente reflexão histórica.

  2. Marcos Silva
    4 de agosto de 2010

    Raimundo:

    Obrigado pelas palavras de incentivo. Vc deve ter notado que esqueci de arrolar o ótimo Manoel Bomfim, contemporâneo de Lima Barreto, entre os anti-racistas, que exigia do regime republicano uma Educação decente para todos.
    Abraços:

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AGENDA

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
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