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O que Alba me deixou…

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Neste sábado, 04 de março, minha tia Alba Catunda Soares, a quem eu chamava de mãe, completaria 93 anos. Morreu há pouco mais de um ano, em janeiro de 2016.

Ela era portadora do Mal de Alzheimer há mais de 10 anos e os momentos nos quais me reconhecia já eram raros, um deles quando eu “catucava” sua mão, costume que eu mantinha há cerca de 40 anos e que ela adorava, mesmo dizendo que não (ver foto, pouco antes dela ser diagnosticada com a doença, com seu indefectível palito na boca).

Nestes quase 14 meses, não foram poucas as vezes que tentei escrever sobre Mamãe Alba. Em todas, o choro chegava antes das palavras. Agora não foi diferente, mas resolvi atravessar a tempestade de lagrimas e vocaliza-las.

Aprendi, ou melhor, experenciei muito com Alba – da comédia ao drama, da religiosidade à boemia.

A exemplo dela, me movo por paixões e ideais. Como ela, nunca tergiversei em abraçar o mais difícil, caso fosse o que eu acreditasse. Acho que foi o principal legado que ela me deixou.

Ironicamente, isso fez com que eu dissesse não a quase tudo que ela quis para minha vida. Fiz os meus próprios caminhos, dos quais não me arrependo, causando-lhe dores, eu sei, mas não fosse assim, eu não teria aprendido com ela.

Até o dia de meu último suspiro lembrarei de seu olhar no dia em que decidi ir embora. A dor não foi só nela e em mim será para sempre.

Com Alba, adquiri costumes, como o de guardar quinquilharias pela casa, documentos velhos, datar fotos, discos antigos, livros, revistas, bilhetes, cartas, aparelhos de TV, gravadores, telefones – o diabo, como ela mesma dizia, às vezes rindo, às vezes, dramática.

Com Alba, cultivei o hábito de “achar parentes”. Sendo de uma família numerosa, basta a gente, aonde chegar, perguntar, que acha.

Com Alba, me apaixonei pelas comunicações – ela era dos Correios e radioamadora, eu sou jornalista. Seus equipamentos de comunicação são, talvez, a lembrança material que mais me a trazem para perto, quando a saudade explode.

Com Alba desenvolvi o gosto por contar e ouvir histórias. Ela tinha ótimo senso de humor, foi com quem conheci os primeiros palavrões que, pronunciados por ela, soavam muito engraçados.

Já observações banais de seu olhar sobre o cotidiano eram feitas em tom quase épico, bem como a simples conjugação de um monossílabo, quando usado para responder afirmativamente alguma pergunta, tinham em suas cordas vocais, uma infinita dramaticidade: É e É e É e É e É e É!!!!

Com Alba, frequentei os primeiros ambientes boêmios, locais hegemonizados por homens, nos quais ela cantava, fumava e bebia, sem que ninguém a questionasse, bem como chegava e saia dirigindo seu próprio carro, algo não tão comum para uma mulher no Açu da época.

Com Alba, adquiri o hábito de trocar o dia pela noite. O carteado, especialmente depois de sua aposentadoria, varava a madrugada, pessoas queridas suas frequentavam nossa casa, público-ouvinte de suas pilérias e das de outros personagens da cidade que, com muita honra, marcavam presença no velho terraço de sua residência, na Rua do Córrego, inclusive figuras importantes da inteligência açuense. Curiosamente, nunca desenvolvi gosto pelo jogo e nem pelo cigarro – difícil achar alguém que não fumasse, ali – mas dormir cedo nunca me foi um exemplo a ser seguido, ainda bem, que sempre tive nas leituras e reflexões, minha prioridade da madrugada.

Com Alba fui aos primeiros comícios, ainda na ditadura, sendo despertado para uma de minhas maiores paixões – e que já era a dela – a política. Porém, sempre estivemos em lados opostos, o que não a impediu de me apoiar em momentos difíceis de minha militância juvenil, ao perceber que tentavam me enquadrar em uma imagem destoante de meu caráter, que ela tão bem conhecia.

Com Alba, fui às primeiras missas, aprendi a rezar, conheci a igreja e, a seu contragosto, decidi, aos 14 anos, não me crismar, talvez minha primeira decisão de confronto da ordem.

Com Alba, desenvolvi amor imenso pelo Açu, por sua história, seus vultos e fatos, suas paisagens, seus personagens, mas como não podia deixar de ser, sempre tendo uma visão crítica, o que às vezes a incomodava.

Convencê-la a deixar o Açu não foi fácil. Por razões de saúde, seus últimos 13 anos de vida foram em Natal, período em que foi muito pouco à terra dos poetas. Sepultá-la lá era mais que nossa obrigação, era, tenho certeza, atender o seu último desejo, mas que por causa da doença, nunca pôde nos dizer. Ao Açu e a seu povo, Alba e sua família só têm a agradecer. Lá, ela está para sempre.

Com mais de um ano de atraso, adeus minha Mãe Alba querida. Por aqui, é muito difícil seguir sem a senhora, mas a gente tenta. Beijo grande, de seu filho e Feliz Aniversário!

Teresina, 04 de março de 2017
Casa de Sirley

Rudson Pinheiro Soares

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