O realismo sujo na prosa de Francisco Umbral

Bruno Rebouças
LiteraturaMais

Jerónimo está sentado no primeiro banco da humilde igreja fincada e esquecida do bairro de Hueva, de onde, anos depois, ia comandar sua gente, desde um vagão de Renfe abandonado.

Há semanas o povo faminto arrasta o pobre padre desde um restaurante até o altar maior, depois de abrirem as portas da igreja a pontapés e comerem o corpo de cristo, em forma de hóstias, ainda não consagradas.

Como um furacão, o povo tenta matar a fome humilhando o pároco, mas desconhece sua força e proporção. Navalhadas e facadas surgem e o padre sucumbe.

Jerónimo observa. Desde pequeno sabe aprender. Sua liderança é inevitável, e como um César dos tempos do circo máximo, deixa o povo agir sem intervir. Terá muito tempo para isso, ainda é uma criança.

Não há corpos para assaltar no cemitério da Almudena, nem se pode pegar os vivos do centro de Madri, envolvida em um cinturão de seguranças pela visita de algum rei estrangeiro.

“A fome é muito ateia, este princípio não falha, ainda que nenhum erudito o tenha estudado a fundo”, afirma Umbral. Com o padre morto dessangrando no altar sagrado, a fome de semanas amenizada pela humilhação, e pelas hóstias, do padre infeliz que ofereceu bolacha, café descafeinado e missa para curar o incurável. É hora de fugir.

Para evitar 1936 (início da guerra civil), o povo lacra as portas da igreja com madeiras e vida que segue. Deus proverá.

Anos depois, Jerónimo, sentado em um vagão esquecido da Renfe, sua casa-escritório, contempla o pôr do sol e recorda aquela tarde lívida e de blasfêmia, na qual mataram o padre e fecharam a igreja para apodrecer e esconder o corpo.

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Ilustração: “Arbol de la muerte”, de Hermes Alvarado

Cadáveres em Madri

Em Madrid 650, Francisco Umbral expõe a atroz história do bairro da Hueva, uma favela finalizada nos anos 1980.

Nessa obra Umbral utiliza de todo seu atroz realismo para descrever o subúrbio e sua tribo, em um retrato antropológico e sociológico da miséria, que envolvia a capital espanhola, em contradição a Castellana (a Champs-Élysées madrilenha mais elitizada) e ao bairro de Salamanca.

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Livro traz história do bairro da Hueva, favela finalizada nos anos 1980

A mescla dessa realidade dura e sagaz expõe seu estilo: o realismo sujo que, muitas vezes, não deixa de ser mágico. Surgido nos Estados Unidos nos anos 1970, esse gênero presa pela precisão.

Nenhum escritor adepto desse realismo supera Umbral.

O olhar reflexivo, a exatidão dos parágrafos, o tamanho dos curtos capítulos que aceleram quase freneticamente o batimento do coração, como esfriam o sangue, nos faz sentir repudio, nojo, ódio ou esperança por não ter a vida dos protagonistas.

Madri é protagonista e usualmente cenário de diversos escritores desde séculos. Mas, com Umbral, Madri se converte em um gênero literário e, em 650, o prêmio Cervantes de 2000 traça a história dividindo-a em três grandes cenários e um protagonista, já apresentado.

Os cenários são o vagão esquecido em um trilho que não leva a lugar nenhum; Madri-centro e o cotidiano aberto, burguês e triunfante; e o cemitério da Almudena.

A morte como o ópio do povo

O povo da Hueva vive dos mortos. Ao longo da história, descobrimos um retrato hiper-realista e atroz na desova de cadáveres para roubar bens enterrados. Seja uma aliança, um brinco, um relógio, seja para satisfazer um vício/doença/necessidade através da necrofilia.

A legião de velhos, pressurosa e nervosa, movida pelas lanternas, vasculhando rebanho de mortos. Jerónimo vê tudo, vigia tudo, mas não participa em nada, como um rei jogando carniça a seus falcões. Serram os dedos de a uma velha para arrancar o anel de diamante. A um esqueleto sério e senhorial lhe desmontam a caveira para levar a dentadura de estanho e ouro alemão. A uma jovem recém enterrada, três bêbados maduros, a desnudam e a violam (Umbral).

A crueldade do relato é acompanhada por uma pergunta real e perspicaz do personagem central, Jerónimo: “E por que se vai apodrecer a riqueza e a pobreza dos mortos debaixo da terra, se há vivos que podem desfrutá-la?”.

Viver dos mortos é o ócio do povo da Hueva, e seu líder máximo, o “príncipe roqueiro, doce e sanguinário, o Luís II da Baviera dos vagabundos”, permite tudo dentro dos muros da Almudena para manter o povo feliz.

Muitos personagens rodeiam a Jero, o anti-herói dessa história, de violência, sexo, crueldade, ilusões, sarcasmo e hierarquia desse submundo que não forma uma família semelhante a máfia, porque seus protagonistas agem sozinhos como prostitutas, mendigos profissionais, ladrões ou pedintes.

A semelhança com a tradição mafiosa está somente em Jero que é o padrinho julgador, executor e vingador de acordo com as circunstâncias.

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Cemitério da Almudena, Madri

O buraco da memória

O juízo final dos personagens que cercam o rei no vagão abandonado é uma caldeira de cal sempre quente, cujos corpos atirados nela desaparecem como se nunca houvessem existidos. Uma espécie de buraco da memória de Orwell.

O monarca exerce a justiça confiando a caldeira aos corpos dos amigos, ex-amigos ou inimigos. Os pilares do reino da Hueva são o sexo, a violência e a morte.

A história se desenvolve, o poder oficial desembarca na Hueva, e seu soberano não tem o poder contra o Soberano Real, nem contra o presidente do governo, da recém democrática Espanha.

O anti-herói forja sua entrada na caldeira, caminha em direção a Madri, sob uma chuva outonal, com vento cortante e arco-íris abaixo do sol.

Caminha como o judeu errante sem rumo, mas para encontrar seu caminho e pagar penitência: deixar de ser rei de um vagão abandonado e começar uma nova jornada na capital do reino espanhol, como um a mais.

Madri está cada vez mais próxima, e não se diferencia do subúrbio. “Madri é uma loja aberta para todos”, pensa Jero. Madri é a verdadeira terra das oportunidades.

A Madri de Umbral não é somente personagem e cenário, virou um gênero literário, e esse romance se encaixa nele e não somente no realismo sujo ou na literatura espanhola.

Madri é cidade mais aberta da Europa, disse Umbral. E está situada a 650 metros sobre o nível do mar.

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Francisco Alejandro Pérez Martínez (1935-2007) é um cânone da literatura espanhola

Biografia de Francisco Umbral

Francisco Umbral foi considerado o maior prosador em espanhol do século XX.

Nascido em Madri, em 1935, morreu em 2007, aos 72 anos, na mesma cidade.

Um dos mais importantes escritores espanhóis das últimas décadas, Umbral foi colunista do El País, Diario 16 y El Mundo. Ganhou o prêmio Príncipe de Astúrias de 1996, e o prêmio Miguel de Cervantes, o Nobel em língua espanhola, em 2000.

Publicou mais 80 livros, na qual se destacam “La noche que llegué al Café Gijón (1977), Trilogía de Madrid (1984), Madrid 1940: Memorias de un joven fascista (1993), El socialista sentimental (1999), e Mortal e rosa (1975), considerada uma das obras maestras do século XX.

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Bruno Rebouças

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