O Maldito Sertão de Márcio Benjamin

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Contos de Maldito Sertão traz o medo sertanejo em torno de lendas folclóricas, forjadas em um cenário de fauna, flora e geografia opostas a tudo o que os colonos conheciam até então; é um dos melhores livros de ficção de um autor potiguar nos últimos tempos.

Tem malassombro à espreita, cuidado!

Akarneiro

Reprodução do quadro Alumiar, do artista baiano Akarneiro (www.akarneiro.com.br).

Acordo às cinco da manhã, de ressaca, meio leso, depois de tomar umas e outras sem cair no passo, na noite anterior. Ligo a luminária e ouço pássaros rasgarem o silêncio da aurora. Junto com o crepúsculo, é minha hora do dia predileta.

Ainda na paquera, pois se paquera com livro, pego Maldito Sertão, de Márcio Benjamin, brochura da editora Jovens Escribas.

De uma tirada só, li os três primeiros contos do escritor, dramaturgo e advogado, “nessa ordem”, como se apresenta na contracapa.

E penso que não teria melhor situação para conhecer suas histórias de assombração, daquelas que povoam a mente de um matuto genuíno. Márcio deve ter feito um pacto com o fute, lá isso deve, para ganhar aquela habilidade toda com palavras.

Poucos autores norte-rio-grandenses em atividade tem capacidade de gerar expectativa e manter o suspense em alta, sem digressões, sem divagações. Só parei de ler na história de BR-101.

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Márcio Benjamin é leitor de Cortázar, Garcia Márquez e Érico Veríssimo; ele usou experiências pessoais e o imaginário sertanejo para compor contos. Fotografia: Dionísio Outeda.

Alta ou baixa literatura? Isso existe?

A primeira edição de Maldito Sertão surgiu em 2012. Alguns estranharam a linguagem do narrador repetir o sotaque das personagens sertanejas, da ausência de norma culta na escrita de quem fala para o leitor. Alta ou baixa literatura? Popular ou erudita? Foram questões levantadas.

É nessa hora que recorro a Émile Faguet, e seu A arte de ler. Tem um capitulo sobre ler como crítico. Entendo que existem predileções temáticas – eu mesmo não me apego a histórias de zumbis, matéria-prima de Fome, romance de Márcio lançado no ano passado que, ainda assim, tem grandes virtudes, como já dissemos aqui no Substantivo Plural.

Aqui a questão é o terror. E para criar vigor dramático, o autor utilizou, com sucesso, recursos que convergem as 12 narrativas para um único caminho: o sobrenatural que amedrontou gerações de sertanejos e ainda impressiona os mais sensíveis.

A vida na cidade forjou novos fantasmas e deixou as lendas de nossos avós no passado, quase risíveis? Ou perde-se a magia literária, ao buscar incongruência com uma lupa?

A fala do narrador nada mais é do que o próprio Márcio apavorado, ainda menino, como testemunha chave dos ‘malassombros’ daquela geografia invencível.

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Livro foi lançado em 2012 e ganhou uma boa versão em quadrinhos

Salto na escuridão ficcional e sertaneja

Maldito Sertão foi indicado duas vezes ao Prêmio de Cultura Potiguar com seu cenário cinzento de velhas caducas, moleques travessos, meninas babás, tipos interioranos que pedem o tom adotado pelo advogado ligado no mato.

Mato que engoliu um homem, Manel, em A Mata. Se passado e futuro quase sempre são descartáveis em um conto, o presente aqui se torna sufocante, com a desesperada mulher do sumido em um bar ocupado só por homens. Tensão em alta voltagem com o som macabro emanado do matagal.

Na abertura, em Casa de Fazenda, um velho range dentes, juntas dos dedos e o juízo à espera de um bicho inominado e responsável por uma carnificina. Vingança contra “aquele satanás, uivando alto como um condenado” é o que promove o homem.

É um aquecimento para as histórias mais elaboradas, casos de O Oratório, À sombra da cruz, Estradinha de barro, A porca e A mariposa negra.

Abortos, bode preto, sumiço de crianças, horrores em meio ao cenário mítico

Em todos os contos, Márcio Benjamin constrói muito tem a realidade espacial sertaneja, de noites enluaradas e silêncios sepulcrais. Ele insere notas de mistério e misticismo, a ponto de amplificar a tensão e demonstrar como a forma literária mais flexível pode ser expandida.

A história de O Oratório traz um menino apavorado com uma espécie de bode preto que ronda a casa. Mas o tormento nas noites de insônia vai além e se revela em âmbito familiar, de onde se espera segurança e conforto.

Mesmo mistério conduz Estradinha de Barro, com a tragédia do sumiço de crianças em um vilarejo. A vileza humana e o desespero pela sobrevivência em uma cidade pobre do interior nos questiona o tempo todo. E nos leva a pensar naquele chegado crítico a determinados projetos sociais com grana na mão do povo.

Maldito Sertão.3Sujeito não passou do Trairí e acha que entende a dinâmica Caatinga adentro, terra sem água e facilidade para adaptação desde que siberianos cruzaram a Beríngia para colonizar o Continente Americano, coisa de 15 mil anos atrás.

A colonização do Sertão Nordestino é assunto interminável para pesquisadores, acadêmicos, estudantes e para nós, curiosos por esse mito brasileiro. Foi um dos maiores mergulhos humanos em um oceano tão desconhecido. Um lugar com fauna, flora e geografia opostas a tudo o que se conhecia até então. Daí a abundância de lendas e horrores.

Como os abortos sofridos por uma bela escrava e o alívio e prisão em Deus de um padre envolvido com a mulher, em À sombra da Cruz. Encaixar a lógica em sua vida de preconceito e culpa é tudo o que ele tenta, para tudo o que ele agoniza.

Os 12 Contos de Maldito Sertão e a literatura Norte-rio-grandense atual

O restante dos contos segue a balada do pavor diante de mitos folclóricos. Curtinho, 87 páginas, os contos de Maldito Sertão são mais impactantes do que o irmão maior, o romance Fome, este ambientado em um ataque de zumbis ao Sertão.

Histórias que merecem uma leitura com a mesma gana das bestas feras mitológicas, por iniciados ou não em conversa de lobisomem, mula sem cabeça ou boitatá. A bonita arte gráfica da capa completa esta ótima experiência com a literatura potiguar. Para os que perguntam onde eles estão, eis um livro importante escrito por alguém nascido e criado por aqui.

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