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O valor das coisas simples

A morte é um excelente motivo para buscar um novo olhar para a vida.
Ana Claudia Quintana Arantes

Quem me conhece sabe que adoro ficar antenada sobre o mundo dos famosos, e foi numa dessas leituras que deparei com um depoimento emocionado de Marco Antônio de Biaggi, o cabeleireiro queridinho das famosas. O texto foi publicado na Revista Vogue, em abril desse ano. Curado de um câncer no sistema linfático, ele fala, essencialmente, de superação e do valor das coisas simples. Além do choque inicial com o diagnóstico, dos problemas relativos ao tratamento contra o câncer, enfrentou outras dificuldades durante esse processo: sofreu quatro paradas cardíacas (colocou pontes de mamária e safena), teve pneumonia e passou cinco meses em coma. Perdeu 35 quilos durante o internamento.

Mas não pense que esse depoimento tem um tom pessimista. Ao contrário, é um relato cheio de otimismo e resiliência. Um grande exemplo de superação e aprendizado. Uma lição de vida. Uma espécie de manual de valorização da vida, ou melhor: das coisas simples da vida, como degustar um prato saboroso, caminhar à beira-mar… Aliás, “andar no calçadão de Copacabana, parar na feirinha de Ipanema e comer acarajé […]”, era o que ele mais desejava quando estava internado.

O depoimento de Marco Antônio é um verdadeiro tratado sobre gratidão. Sim, pois as adversidades também podem nos ensinar muitas coisas, nos fazer enxergar o valor das pessoas que amamos e, sobretudo, a importância de valorizamos as coisas simples da vida, que muitas vezes passam despercebidas na correria insana do cotidiano e nessa “agitação feroz e sem finalidade”, para lembrar os versos de Manuel Bandeira num poema que fala justamente da efemeridade da vida. E tudo em nome de um futuro que pode nem chegar. Por isso, prefiro ficar com a máxima latina Carpe diem, e tentar viver um dia de cada vez.

Minha identificação com o relato de Marco Antônio foi imediata porque penso de forma semelhante, e acredito que a atitude de reclamar, sem ao menos refletir sobre a dor que nos aflige, não é o melhor caminho para alcançar a paz, ou a cura, no caso dele e de tantas pessoas que enfrentam doenças crônicas e/ou estão na iminência da morte.

Sei que não é fácil pensar de forma racional em certos momentos da vida, especialmente quando o assunto é doença e/ou morte, mas nessas horas, ou também nos momentos de felicidade, é preciso lembrar que o sofrimento é inerente à condição humana e que a dor também pode nos ensinar muitas coisas, inclusive que somos mais fortes do que imaginávamos antes de enfrentarmos determinados problemas, a valorizarmos mais o que e, principalmente, quem temos nessa vida. E é exatamente assim que pensa Marco Antônio de Biaggi: “[…] se você me perguntar se eu passaria por tudo isso de novo, passaria. Foi um aprendizado e me sinto grato. O segredo da vida é a gratidão”.

Pelas histórias de vida que conheço, seja através de livros, filmes, ou mesmo aquelas que foram contadas e/ou vivenciadas por parentes e amigos, percebo que situações como essa que foi relatada por Marco Antônio colocam em xeque os nossos valores e, principalmente, nos fazem refletir sobre a nossa postura no mundo, ou seja, nos fazem pensar, por exemplo, no acúmulo de bens materiais, no narcisismo exacerbado, no individualismo e em tantos outros valores líquidos que regem o mundo contemporâneo.

Valorizar o que de fato tem valor. Talvez seja esse o segredo de uma vida mais leve. Essa é mais uma das lições do texto em pauta, que nos ensina a valorizar o essencial: “Desisti também de ter apartamentos no Rio ou em Nova York, não quero mais esse tipo de trabalho, cuidar de casas, acumular”. Antes da doença, “embarcava na ideia da fama, […] e só pensava em trabalho, não tinha nem domingos livres”, diz ele.

E sabe qual o maior desejo de Marco Antônio hoje? Fazer viagens caríssimas? Participar de eventos badalados no mundo da moda? Nada disso! “Se pudesse escolher algum presente de aniversário, pediria para minhas pernas ficarem fortes o bastante para eu poder voltar a andar no calçadão de Copacabana”. E assim ele nos dá uma lição de humildade e gratidão.

A atriz Drica Moraes vivenciou uma situação semelhante à do cabeleireiro Marco Antônio de Biaggi; em 2010, ela foi curada de uma leucemia após um transplante de medula óssea. Em depoimento a Lázaro Ramos, no programa Espelho (Canal Brasil), fez a seguinte declaração: “[…] o tempo vai passando e você vai se distanciando daquilo e a vida vai renovando. O tempo vira um grande aliado, sabe? Você perde todos os medos de envelhecer, você perde todas as vaidades […]. É tão bom sobreviver a uma coisa grave porque você ganha um bônus, sabe? Parece que você sai do outro lado com uma poupança garantida de como aproveitar a vida melhor”.

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Andreia Braz

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