Óbitoparto de Luciano de Almeida

1 de março de 2011 às 9:35 - 1 Comentário

Por Rudson Pinheiro Soares

No dia 05 de maio de 2004 tive o prazer de conhecer pessoalmente alguém de quem, por muitas vezes, ouvi falar de forma quase mitológica. Refiro-me a Luciano de Almeida, jornalista, intelectual, homem do povo, que a ditadura tratou de trancafiar prejudicando não só a ele como também a todos os que foram obrigados a se privar de seu conhecimento, sua amizade, sua generosidade.

Por algumas vezes vi Luciano andando pelas ruelas e pelos becos e bares da Cidade Alta. Preferia não me apresentar, não procurá-lo. Vai ver que era o medo de desconstruir o mito edificado em minha alma socialista. Acho que eu não me sentia no direito de “entrar” na história, mas apenas lê-la, estudá-la. Ouvi falar pela primeira vez dele em 1992. Eu tinha apenas 17 anos, era recém chegado de Açu e calouro do curso de Mecânica da ETFRN. Seu nome estava nas rodas da meninada de luta do Grêmio Estudantil Djalma Maranhão.

O tempo passou e eu, já adulto e morando no estado de São Paulo, portanto, há algum tempo sem ter notícias de Luciano de Almeida, envolvi-me em um projeto do Intervozes – grupo do qual faço parte: uma publicação que resgataria histórias da comunicação no processo de redemocratização do Brasil. Precisávamos selecionar pessoas, entidades e/ou projetos que militaram na comunicação no período proposto. Numa de minhas idas ao RN, no retorno para casa, encontrei, no aeroporto, o então vereador Hugo Manso, do PT, que havia sido meu professor na ETFRN. Nosso papo estendeu-se ao avião e, já em Sampa, ao Metrô. Pedi-lhe uma sugestão que representasse o RN no projeto do Intervozes. “Luciano de Almeida”, disse Hugo. Bingo! Luciano havia sido dirigente, nos anos 80, da Cooperativa dos Jornalistas de Natal (Coojornat) e do Sindicato dos Jornalistas do RN (Sindjorn). Topei, mesmo sabendo do risco, ou melhor, da certeza de que, de uma vez por todas, o mito Luciano, presente em minha adolescência, daria lugar, em minha cabeça, à pessoa de carne e osso.

Quase um ano depois, após um contato telefônico, fui ao encontro de Luciano de Almeida, acompanhado do meu amigo jornalista Evânio Mafra, que fez as honras do fotojornalismo. No caminho, a bordo do bugre de Mafra, uma certa dose de ansiedade e um “toró” que já durava cinco dias na capital potiguar.

Luciano já nos esperava na área de sua residência, à movimentadíssima Rua Mário Negócio, no Alecrim. Ele estava à vontade, trajando camisa, bermuda e sandálias. Fomos convidados a entrar. Ele sentou-se em uma cadeira de ferro bem no “sovaco” da área e logo começamos a conversa, em tom informal. Foi uma hora de eternidade, naquela tarde chuvosa de quarta-feira. Tivemos a companhia do barulho dos carros da movimentada rua e de um cachorro transeunte que resolveu por ali parar e, como um agente da ditadura, não cansava de latir, como se estivesse tentando impedir Luciano de ser ouvido. Fiquei preocupado, com medo de a gravação não ficar audível. “Fui entrevistado várias vezes aqui e nunca teve problema”, disse ele. Por um pedaço de tempo, fomos testemunhados pelo olhar atento de seu Lauro, seu pai. Pude perceber um Luciano resistente, firme, de esquerda, porém não orgânico. Falamos sobre sua militância política, seu período de Atheneu, a clandestinidade, a prisão, a boemia, a cidade de Natal. A Coojornat, o Sindjorn, o Governo Lula e o MST também fizeram parte do nosso bate-papo. Mas a emoção de Luciano aflorava de forma perceptível quando ele se referia a Emanuel Bezerra dos Santos, jovem quadro político assassinado pela ditadura. Outro momento de emoção foi quando ele descreveu a selvageria que foi sua prisão, em frente ao Cinema Recife, na capital pernambucana, bem como quando comentou sobre os 10 anos em que esteve preso.

Naquela tarde chuvosa no Alecrim, na minha cabeça, morreu o mito. Nasceu o ser humano Luciano. Um óbitoparto registrado no livro “Vozes da Democracia: histórias da comunicação na redemocratização do Brasil”, publicado pelo Intervozes e editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Trata-se de um rico documento que, através de vários repórteres, inclusive este que vos escreve, resgata histórias do Brasil inteiro, entre as quais, as contadas por Luciano de Almeida. O livro pode ser baixado, em formato PDF, no endereço eletrônico www.intervozes.org.br

1 Comentário

  1. Jarbas Martins
    1 de março de 2011

    belo e necessário registro histórico, amigo rudson. parabéns.

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POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar