Obras de Cervantes tem nova edição

26 de dezembro de 2009 às 9:26 - Comentar

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

A primeira edição das “Novelas Exemplares”, de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), é de 1613, e, portanto, no intervalo entre a primeira (1605) e a segunda parte (1615) do “Dom Quixote”. Constavam dela 12 histórias divertidas e edificantes, de “honestíssimo entretenimento”, como se escrevia nas licenças devidas de impressão. No gênero, Cervantes se gabava de ser pioneiro na Espanha. Em seu célebre prólogo ao livro, afirmava: “(…) eu sou o primeiro que novelei em língua castelhana, pois as muitas novelas que nela andam impressas todas são traduzidas de línguas estrangeiras, e estas são minhas próprias, não imitadas, nem furtadas: meu engenho as engendrou, e as pariu minha pena, e vão crescendo nos braços da estampa”.

Cresceram com tanta felicidade, que não há língua de cultura que se dispense de publicá-las. No Brasil, as duas edições mais fáceis de encontrar nos sebos e livrarias são a da Ediouro, que já circulava em meados dos anos 60, e a da Abril, que lançou o livro no início dos anos 70 e em 1983. São edições baratas, de grande circulação. Já era tempo, contudo, de vir à luz, em português, uma edição que aliasse a esses dois trunfos também o de ser provida de um aparato crítico consistente.

Não é esperança atendida pela Editora Arte & Letra, de Curitiba. Se cabe aplaudir a iniciativa de repor em circulação um livro importante, bem como a sua tradução fluente, embora por vezes claudicante no emprego da regência, o mais é decepcionante. A começar pela redução das 12 novelas a quatro, sem qualquer critério explícito para o corte ou a escolha. Decepciona também a ausência de comentários da tradução ou de um posfácio capaz de abrir vias de leitura complexas, assentes na vasta tradição de intérpretes do volume.

Articulação cômica

Assim, por exemplo, valeria chamar a atenção, em “A Ciganinha”, para a articulação cômica entre a discrição, qualidade do espírito que alia as virtudes do decoro e da prudência, com um pragmatismo venal e sem culpa. Há ainda o notável tratamento dado ao tópico da beleza, esta que, por si só, como verdade eloquente, parece prestar testemunho da nobreza do caráter e do nascimento.

O mesmo tema da beleza reaparece em “O Amante Generoso”, quando dá origem e sustentação ao amor, afeto tirânico que, por sua vez, lança o amante nos piores transes da ventura, armado somente de frágeis esperanças e perigosas seguranças, como versaria Camões. “Rinconete e Cortadilho”, pequena maravilha estilística, descreve uma infame confraria de pícaros e ladrões, todos certos de ir aos céus sem o estorvo das boas ações. Tudo é gracioso: da corrupção popular do vernáculo às metáforas agudas, que denunciam enviesadamente as trapaças correntes nos ofícios da cidade. Hilariante é ainda a troca de ofensas, violentas e amorosas, entre a puta e seu rufião.

“O Licenciado Vidraça” desenvolve o lugar comum retórico do “louco que diz a verdade”, que está, por exemplo, em “Hamlet”. A maledicência do vulgo, o ideal das letras e armas, as tópicas satíricas, o saber feito de experiência e honesto estudo são outros assuntos tratados magistralmente por Cervantes, com estilo e graça apenas comparáveis aos muito grandes. De modo que, afinal, a riqueza do livro compensa a edição parca.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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    • Daniel Menezes: O direito autoral é a apropriação individual de conhecimento coletivo. Tipo assim, a sociedade trabalha para promover a cultura objetiva e depois, alguém, por um impulso social, produz algo. Afinal, uma sociedade sempre gera as questões que pode responder, já dizia o barbudo. Este "inventor" (expressão burguesa) não produz a "novidade" sozinho e nunca partindo do zero. Depois de feito, diz que aquilo é dele. Só muito aparato estatal para empurrar isso pela goela. - Pirataria
    • Ednar Andrade: Boa noite, Marcos, amigo, querido. Também acho maravilhoso reencontrá-lo. Já sentia a tua falta aqui neste espaço. Saudades. Eu sou, tu és, Rio corrente. Não demores. Beijos, querido. - Fio de luz
    • Regiane de Paiva: Não sei dizer o quanto este texto me emocionou. Aqui sinto a literatura e a vida. Cada metáfora ou descrição de um recorte da memória provoca uma sensação de nostalgia e de melancolia. Llosa afirma que nada ensina melhor que a literatura a ver a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-la como uma manifestação da sua múltipla criatividade. Desta forma, entendo que este texto é literatura pura! Literariedade, primor e encanto! Beijos in..... marido! - Da solidão
    • Regiane de Paiva: O título é a extensão do texto. A fala pueril dentro de um contexto como a política remeteu a uma bela reflexão. À medida que eu ia lendo o texto, ouvia uma voz de menino atrás dos meus olhos, parece que o menino conversa fitando o leitor... Texto maravilhoso! - Política de menino
    • Jarbas Martins: UM HAI-CAI PARA FERNANDO MONTEIRO A noite, com gesto brusco,/ roubou um naco da tarde/ e se esgueira pelo subúrbio. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Fernando Monteiro, sim. E o pouco que li de António Lobo Antunes. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Juan Ramón Jiménez, sim. E a boa tradução de Antonio Cícero. - Juan Ramón Jiménez: "Soledad" / "Solidão"
    • Marcos Silva: Não assisti à montagem de Roda Viva, eu morava em Natal na época. Li o texto, vi fotografias, ouvi depoimentos (inclusive de Anna Maria Martinez Correa, historiadora e irmã de José Celso, que acompanhou os debates sobre a agressão aos atores da peça). A peça foi recuperada na auto-vitimização de Marília Pera como justificativa para seu apoio à candidatura de Fernando Collor... Na época da encenação, atribuía-se a agressividade da peça ao diretor José Celso. Chico Buarque, com muita dignidade, declarou que o texto era integralmente dele. É difícil dizer para um autor o que ele deve ou não autorizar fazer em relação a sua obra. Roda viva existe como memória. Talvez seja legal pensar, hoje, numa peça sobre Roda viva (que tal uma peça sobre a invasão do teatro pelos terroristas de direita, que contavam com apoio de estado?). En passant, discordo de Alonso sobre a peça criticar APENAS a Jovem Guarda. É claro que ela aborda toda a indústria cultural, que lançou inclusive... Chico Buarque de Hollanda! Nesse sentido, é preciso explorar em profundidade as ligações entre a peça e canções posteriores, como "Agora falando sério" e "Essa moça tá diferente". - Zé Celso questiona decisão de Chico de vetar encenação de 'Roda Viva'
    • carlos de souza: devia liberar a biografia, que não tem uma sequer revelação que já não tenha em sua discografia e reportagens jornalísticas. punir um escritor sério por pura babaquice diminui sua aura de "rei", isso sim. - Roberto Carlos autoriza relançamento de seu disco "proibido"