Observações sobre uma anedota kafkiana

4 de abril de 2010 às 9:19 - Comentar
Por Nelson Patriota

Diz uma anedota que o filósofo Gyorgy Lukács reviu suas opiniões sobre a obra de Franz Kafka depois dos excessos praticados pelos soviéticos em represália à revolução húngara de 1956, defendida, entre outros, pelo autor de A teoria do romance. Se, até então, Kafka não passava, para o filósofo húngaro, de um autor “burguês” e “alienado”, depois da repressão soviética, sobretudo depois do contato direto com a burocracia estalinista e seus métodos persuasivos nada ortodoxos,  ele reabilitou Kafka para o rol dos escritores “realistas” (na nomenclatura lukacsiana, uma qualidade acima de qualquer disputa).

Condenações de suspeitos antes de (ou sem) serem julgados, labirintos jurídicos intermináveis, barreiras burocráticas intransponíveis, enfim a ocorrência sem prévio anúncio do absurdo e do grotesco no mundo da vida cotidiana foram argumentos decisivos para que Lukács reabilitasse o escritor tcheco.

É possível dizer que, desde o final dos anos 1950, portanto, as obras de Kafka ganharam direito a um lugar no cânone socialista, pouco depois do seu triunfo na sociedade burguesa europeia.

Esse processo culminou na popularização do adjetivo “kafkiano”, sempre que alguém depara, no seu dia a dia, com um fato de ordem burocrática cuja razão de ser é supostamente atanazar a vida das pessoas. Ocorrências de situações absurdas, confusas, de motivações obscuras, também costumam ser rotuladas de kafkianas.

Pode-se dizer, todavia, que a semântica do adjetivo kafkiano ainda não está de todo consumada. O escritor americano Louis Begley acaba de lançar no Brasil seu “O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka”, onde volta a discutir, entre outros assuntos, o polêmico termo. Embora evite conjeturar novas hipóteses, Begley anima a discussão ao defender que “kafkiano” não seria senão o efeito que a obra de Kafka produz nos seus leitores, experiência que, para o biografo americano, pode se resumir a uma espécie de “claustrofobia do mundo”.

Ou, nas palavras de Modesto Carone (primeiro tradutor brasileiro do Kafka original) kafkiano seria um termo aplicável a uma “situação de impotência do indivíduo moderno que se vê às voltas com um superpoder que controla sua vida sem que ele ache uma saída para essa versão planetária da alienação – a impossibilidade de moldar seu destino segundo uma vontade livre de constrangimentos”.

A definição de Carone, dada ao jornal Folha de S. Paulo no dia 27 do mês passado, é problemática na medida em que limita os múltiplos significados possíveis de “kafkiano” a um sentido político. Talvez este comporte a somatória dos demais, mas não é, certamente, o único.

A ideia de “claustrofobia do mundo”, citada por Begley, ou de “estranhamento do mundo”, como outros observadores assinalaram (lembremos do enredo de A metamorfose, ou do conto “Um médico de aldeia”) são políticos, mas não o são exclusivamente. Elementos existenciais, filosóficos, psicológicos, alegóricos etc. se somam num amálgama que admite,por exemplo, uma interpretação “realista” por parte do rigoroso filósofo Giorgy Lukács, ou religioso, como ocorreu ao amigo de Kafka, Max Brod.

O psicanalista Enrique Mandelbaum (também citado pela Folha) contribui para esse debate com uma observação pouco lembrada, mas perfeitamente cabível: “kafkiana é uma conversa amigável que descamba para uma floresta de mal-entendidos”.

Observações dessa ordem servem no mínimo para realçar a plasticidade desse estranho adjetivo que se tornou uma chave interpretativa indispensável para a compreensão da vida cotidiana em nossa época.

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”