Omagro

Milena Azevedo
Colunistas

Conto escrito em homenagem ao russo Nikolai Gogol, publicado originalmente na revista Preá (RN).

Todos o chamavam ‘Omagro’; assim mesmo, tudo junto. Ele era completa languidez, totalmente desproporcional em um metro e noventa e três centímetros. Geralmente não sentia fome, mas comia; outras vezes, tinha vontade de comer, mas a dispensa estava vazia. Num desses famintos dias, Omagro resolveu ir ao mercado. Como era fim de mês, só dispunha de míseros trocados. Por isso, ao invés do ônibus, pegou o metrô; que pra variar, estava lotado. Omagro, mesmo usufruindo de sua tão esbelta silhueta, teve que se espremer entre os demais, pois, como se sabe, alguns ainda insistem naquela velha vinheta do ‘sempre cabe mais um’.

– “Quem senta num banco de metrô lotado, nunca compra atum enlatado”, filosofava Omagro.

Eis que num dos muitos abre-e-fecha de portas, entra no vagão, que estava Omagro, um sorridente palhaço. Assim que viu aquela figura, Omagro desviou seus olhos para os classificados, os quais estavam sendo meticulosamente examinados pelo senhor sentado ao seu lado. Como não o interessava comprar nem vender carros, Omagro preferiu voltar sua atenção ao palhaço. Quão foi o seu susto ao constatar que estavam, à sua frente, apenas as botas do palhaço!.

– “Por acaso, o senhor viu para onde foi o palhaço que estava aqui em frente?. O louco devia estar com tanta pressa que esqueceu as botas!!!”, perguntou Omagro assustado, para o senhor dos classificados.

– “Rapaz, acho que o louco aqui é você!”, disse, rispidamente, o senhor dos classificados.

– “Me desculpe, mas o senhor deve estar cego pra não ver esse par de botas de palhaço, largado aqui na nossa frente!”, rebateu Omagro ironicamente.

– “Rapaz, vou lhe dar um conselho: diminua a dosagem do que sei lá que você está tomando…”, respondeu o senhor dos classificados, já cortando qualquer tentativa de prolongar a conversa.

– “Será que estou com tanta fome assim, a ponto de sofrer alucinação?”, pensou Omagro, com os olhos esbugalhados.

Como todos olharam para ele, deixando escapar um riso de deboche, Omagro, atordoado, saiu do vagão e entrou no seguinte, afinal faltava mais de uma estação para o terminal. Preferiu ficar de pé, ainda que agora tivesse a opção de poder sentar-se mais confortavelmente. Sentiu que alguém tinha lhe pisado os pés, e quando olhou para baixo, perplexo, deparou-se com as mesmas botas de palhaço.

– “Não acredito, não é possível!!!. Por que só eu vejo essas botas?, pensou Omagro, esfregando as mãos em seus olhos.

O ponto terminal chegou e Omagro saiu do metrô. E as botas insistiam em lhe fazer companhia. Caminhou uma quadra até o mercado, sempre parando e olhando incrédulo aquelas botas que o seguiam. Pegou o carrinho e foi às compras. Nada de enlatados ou embutidos, ia levar somente pão, queijo, um litro de refri e um pote de sorvete, caso aparecesse algum amigo. Dirigiu-se ao caixa e pagou a quantia de treze reais e setenta e dois centavos (sim, Omagro sempre andava com moedas de um centavo nos bolsos, para que ninguém lhe enrolasse com o troco). Mas, para sua surpresa, quando já estava deixando o mercado, o segurança lhe grita:

– “Ei, aonde você pensa que vai, sem pagar por essas botas?”.

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Milena Azevedo

Comentários

1 comment

  1. Mackenzie M Melo 11 abril, 2017 at 20:56

    Daria uns dois centavos – de dólar –
    pelas botas! 🙂
    Lembrou muito ‘The Overcoat’ de Gogol, que não sei o nome em português. Deu vontade de reler! Obrigado Milena.

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