AudiovisualCrônicas e Artigos

Onde estão os cinemas da cidade?

28-04-09
Cinema Rio Grande passará por reforma e será transformado em igreja/
Foto: Marcelo Barroso/release

Obviamente que tal título é uma pergunta retórica, pois sabemos perfeitamente onde se encontram atualmente todas as grandes salas de cinema da cidade. O verdadeiro ponto é: quais as representações simbólicas e ideológicas no fato dos cinemas estarem hoje enclausurados nas dependências de shoppings? O que isso diz sobre a forma com a qual nos relacionamos uns com os outros e, sobretudo, com o mundo?

Quando o Natal Shopping foi fundado na primeira metade da década de noventa, em sua esteira vieram duas salas de cinema, a Cine Natal 1 e a Cine Natal 2. À época, tínhamos ainda o Cinema Nordeste e o Cine Rio Verde, ambos localizados no centro da cidade. Hoje desativados, o Rio Verde, em mais um episódio repleto de simbolismos, tornou-se uma igreja evangélica.

O fato das salas de cinema estarem hoje limitadas a espaços privados e artificializados parte de um fenômeno mais amplo: a crescente transferência das relações de convivência de espaços públicos – parques, praças, ruas, travessas, etc – para espaços particulares, normatizados, assépticos e sobretudo moldados a partir da perspectiva do consumo.
A mediação da convivência nos espaços públicos tem como fundamento os laços comunitários inerentes à própria narrativa do bem comum – ainda que com o advento de mecanismos virtuais de entretenimento que trabalham com a realidade ampliada (ou Pokemon Go, para ser mais direto), esses laços tendam a ficar cada vez mais frouxos. Em circunstâncias onde as pessoas costumam se dirigir às praças e parques para praticar exercícios, jogar jogos de tabuleiro, ver o movimento ao fim da tarde e realizar atividades lúdicas e esportivas, o contato e as trocas de experiências são mediatizadas não só pelo espaço público em si, mas pela compreensão subjacente de que ele é feito para todos e todas, indiscriminadamente.

Não há a necessidade de credenciais para o uso do espaço público. Basta o direito de ir e vir. No momento em que tais relações se transferem cada vez mais para espaços empresariais instrumentalizados para o ato de consumir como um fim em si mesmo, não é mais o mundo e todos os vínculos comunitários a ele inerentes que passam a mediar as relações entre as pessoas, e sim as normas específicas daquele espaço, ditadas, portanto, segundos os interesses de quem o idealizou. O consumo passa a ser o elo por meio do qual se estabelecem as relações entre as pessoas, que se dirigem a determinado local não apenas para se encontrar, mas também – e principalmente – para consumir. Não é possível vislumbrar a qualidade das praças de alimentação e corredores de shoppings como pontos de encontro espontâneos quando vazios existenciais e surtos depressivos são costumeiramente remediados com passeios em seus corredores e compras em profusão.

Se a convivência vem sendo transferida para espaços artificializados onde a credencial para o seu acesso é o consumo, que passa a intermediar as relações intersubjetivas, o tratamento dado às pessoas qualificadas como consumidoras falhas que tentam entrar nesse universo escancara de vez o seu viés excludente. O fenômeno dos rolezinhos é a mais cabal comprovação disso, onde negras e negros jovens, moradores de áreas periféricas e bombardeados com padrões de felicidade intrinsecamente ligados ao consumo de determinados bens representativos de status, inclusão e aceitação social, dirigem-se em grupo para shoppings, local por excelência para o exercício destes valores, onde são monitorados, barrados, perseguidos e expulsos pelos seguranças. Evidencia-se, assim, que as normas particulares daquele lugar atestam que é possível o consumo sem convivência, mas não a convivência sem consumo, principalmente se você aparenta fazer parte do exército de consumidores falhos, a sujeira pós-moderna que, segundo Bauman, deve ser contida pelas forças de segurança pública e privada, sempre no afã de garantir que os alijados da lógica do consumo não incomodem os que podem corresponder aos anseios dessa narrativa.

Vivemos em cidades cada vez mais divididas, fragmentadas e com intensos potenciais de conflito. A forma com a qual enxergamos o mundo e delineamos suas possibilidades está quase sempre associada ao lado da cerca em que nos encontramos. A cidade, conforme ensina David Harvey, sempre foi um lugar de encontro, de diferença e de interação criativa, um lugar onde a desordem tem seus usos e visões e as formas culturais e desejos individuais concorrentes se chocam. Não há democracia onde o empreendedorismo predatório e a anarquia do mercado substituíram as capacidades deliberativas fundadas em solidariedades sociais. O fato de não haver mais cinemas nas ruas é só um dos pregos no caixão da noção de comunidade estrangulada pela crescente apropriação do público pelo privado. Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito, então ele pode ser reimaginado e refeito. É isso que devemos fazer se queremos devolver a cidade às pessoas e as pessoas à cidade.

Share:
Gustavo Freire Barbosa

Comentários

Leave a reply