Onde ficam os livros

Lívio Oliveira
DestaqueLiteratura

Às vezes guardo a impressão de que estou ultrapassado em muitos dos meus hábitos e costumes. Um deles é o de continuar adquirindo e lendo livros impressos, de papel. E o de cultivar a minha pequena biblioteca, além de me dedicar aos cuidados e ao zelo, mais recentemente, da Biblioteca Padre Luiz Monte, da Academia Norte-rio-grandense de Letras (foto acima).

Talvez fosse mais fácil simplesmente aderir aos que preferem ler os tais livros eletrônicos, nas muitas espécies de celulares, tablets e computadores do mercado. Só que não funciona assim comigo. Preciso ter em minhas mãos e diante dos olhos o objeto-livro, com sua natureza quase sensual, seu cheiro, elementos visuais a preencherem os olhos, textura, forma, sons minúsculos e sensações que decorrem do atrito leve entre as folhas. Nada que possua mais magia, no mundo físico das invenções clássicas, do que o livro impresso.

Evidentemente que há obstáculos preocupantes: os preços dos livros, a falta de espaço nos ambientes residenciais (destacadamente nos apartamentos), as alergias, a resistência eventual de cônjuges, o tempo reduzido para as leituras de todas as obras adquiridas etc etc. No entanto, continuo acreditando que ter e manter livros impressos é uma excelente maneira de resistir culturalmente, num mundo que tem privilegiado as trocas fáceis e, por vezes, fúteis, das redes sociais, bem como elementos de uma cultura já deveras contaminada com produções de extremo mau gosto e duvidosa qualidade.

dublin

Biblioteca de Admont – Admont, Áustria

Quanto a essa minha preferência, que vem desde a infância, penso e afirmo, exatamente como o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre, em seu belíssimo livro “Les Mots” (“As Palavras”): “Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros”. É que não vejo outra opção, diante do meu temperamento e da minha história de vida. Essa sempre foi exatamente a minha opção. Talvez porque também sempre assumi uma certa recusa em buscar grandes riquezas ou patrimônios pessoais, optando pelos pequenos objetos colecionados, desde selos (saudades da minha época de filatelista), passando por discos (LP’s, CD’s e DVD’S) e, destacadamente, os livros, que me acompanham com mais fidelidade e aos quais dedico mais atenção e mesmo uma certa reverência (não chega a ser um fetiche, acreditem).

Confesso mais uma vez, apesar de todo o amor e paixão declarados aos livros, que a relação nem sempre tem sido fácil, pelas razões acima já expostas e também porque a sistematização de uma biblioteca, seja ela privada ou pública, não é fácil, comportando inúmeros conflitos íntimos do formador ou organizador do acervo, levando a questões físicas, lógicas e psicológicas (falo mesmo do indivíduo que se mete numa aventura dessas) a merecerem cuidados especiais: 1) Para que o acervo tenha a sua fiel e segura destinação e não corra riscos incabidos (são muitos); 2) Para que o próprio dono ou cuidador da biblioteca consiga resolver intelectualmente os dilemas surgidos na ordenação dos livros nos espaços das estantes, vindo a servir intelectualmente aos destinatários, dentre os quais certamente estará incluído.

Há prazeres e há dificuldades na organização de uma boa biblioteca. No caso das particulares, que podem, em quase todos os casos, traduzir a personalidade do formador do acervo, há uma dificuldade extra e extremamente desagradável. E qual é? A de responder à repetida e antipática pergunta “– Já leu tudo isso?” Puxa vida, como se pudéssemos ou devêssemos ler enciclopédias e dicionários inteiros, por exemplo! Nessas horas, prefiro repetir a lição do grande crítico paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que diz em sua obra “Os Livros (a única viagem)”, Ideia, João Pessoa, 2017: “Arrumar os livros, limpar-lhes a poeira, protegê-los de seus inimigos inevitáveis (traças, fungos, mofo, bibliopatas em geral), assim como encapá-los, folheá-los, proceder-lhes a leitura de reconhecimento, como dizem os especialistas, enfim, cuidar deles como entes vivos, como companhia silenciosa e surpreendente, constitui também uma forma de leitura. Uma leitura toda feita de carícias: corpórea, afetuosa, erótica…Uma leitura que, mesmo submetida ao lavor diário e ao desafio incolor da rotina, só dá prazer. Um prazer que não se esgota e nem sabe a saciedade.”

Está respondido, não é? E muito bem! E é claro que o nosso Hildeberto associa – como também o faço – essa prática à prática da leitura detida e minuciosa de boa parte dos volumes da biblioteca, culminando com uma leitura completa, sim, de todos os livros guardados e amados. Todos eles, nos seus lugares na estante e na mente.

Share:
Lívio Oliveira

Comentários

1 comment

Leave a reply