Opiniões de choque

29 de agosto de 2010 às 19:41 - 2 Comentários

Por Sergio Augusto
O Estado de S.Paulo

Gandhi causou mais danos à humanidade do que Hitler. A revolução islâmica salvou o Irã para a democracia. Os governos militares fizeram um bem inestimável ao Brasil. Lula transformou o Brasil no Sudão da América do Sul.

Não subscrevo nenhuma dessas afirmativas, e só as juntei aqui para mostrar como certos disparates e determinados vaticínios não brotam exclusivamente de mentes ignaras e rombudas – se é que essa constatação, de tão velha, já não virou um truísmo.

A primeira afirmativa foi processada no cérebro do filósofo esloveno Slavoj Zizek. A segunda trazia a assinatura de Michel Foucault. A terceira era uma ideia fixa de Gilberto Freyre. E a quarta, com o verbo no futuro (do presente ou do pretérito, tanto faz), foi uma profecia do Paulo Francis. Uau!

Segundo Zizek, Gandhi e seu militante pacifismo desencadearam uma onda de violência improdutiva, que não eliminou a influência britânica sobre os rajás da Índia nem o sistema de castas do país, ao passo que Hitler fez de tudo para aniquilar o colonialismo inglês. Perdeu a parada, mas até onde pôde ir, sua violência afetou mais o status quo do mundo do que o pacifismo de Gandhi o status quo da Índia.

O desconcertante Zizek, que é a favor da violência, desde que ela consiga mudar o que precisa ser mudado, aumentou seu contingente de desafetos ao aproximar o símbolo máximo do pacifismo, da não violência, do símbolo máximo do belicismo e da ferocidade – sobretudo na terra de Gandhi, por conta de uma entrevista ao The Times of India, em janeiro deste ano. Seu controverso paralelismo reavivou a fúria do jornalista Adam Kirsch, há tempos às turras com ele na revista The New Republic. Kirsch baixara a lenha em dois livros do filósofo, Violence e In Defense of Lost Causes; Zizek respondeu; o placar atual é 2 x 1 a favor de Kirsch. Quem mandou Zizek dizer (ou insinuar) que Hitler “não foi violento o bastante”?

Kirsch, judeu, não quis saber de examinar a provocação pelo ângulo menos óbvio. Por pouco não a comparou à crítica de Sartre à “decepcionante” atuação dos jacobinos na Revolução Francesa. Para Sartre, muito mais cabeças deveriam ter rolado entre 1792 e 1795, para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Se Sartre pediu mais sangue no Reino do Terror, Marx qualificou Simon Bolívar de “canalha covarde”, Engels festejou a conquista da Califórnia ao México pelos Estados Unidos, Eliot era antissemita, Pound bajulou Mussolini e Heidegger curvou-se ao nazismo, sem que nenhum desses desvios empanasse a importância de suas contribuições para um mundo mais civilizado, que sentido faz patrulhar e punir Foucault por sua pixotada pró-aiatolá Khomeini?

Quando o xá da Pérsia começou a balançar no trono, no final dos anos 1970, Foucault vislumbrou no Irã o surgimento de uma república democrática, inspirada por “uma religião de combate e sacrifício”, que transcenderia o islamismo e transfiguraria o mundo. Os mulás, garantiu, não eram fanáticos, mas a voz dos oprimidos. O xá caiu, os mulás empalmaram o poder e o fundamentalismo religioso sufocou os anseios democráticos, combatendo e sacrificando os “impuros”, submetidos a julgamentos sumários e execuções quase instantâneas.

Alarmado com o revertério, Foucault enviou carta ao primeiro-ministro Mehdi Bazargan, seu velho amigo, mas este, que também acreditara na possibilidade de uma república laica no Irã, logo deixaria a pasta, decepcionado com os desvios da revolução.

Na mesma época em que Foucault augurava um futuro fulgurante para o Irã, nosso mais festejado sociólogo, Gilberto Freyre, utilizava seu espaço na imprensa para incensar a ditadura militar. “O que teria sido do Brasil, nestes últimos anos, sem governos excepcionais?”, perguntou num de seus artigos para a Folha de S. Paulo, em junho de 1978. Já o sabíamos vaidosíssimo, ególatra, fascinado pelo poder e amigo de ditadores (Getúlio Vargas, Salazar), mas sua atuação como chaleira do regime excepcional surpreendeu até alguns de seus mais devotos discípulos.

Freyre defendeu o AI-5, manifestou-se a favor de eleições indiretas (“mais honestas que as diretas”), sempre esquivou-se de condenar a censura a livros, filmes e peças de teatro (não abriu o bico quando o ministro da Justiça Armando Falcão proibiu o livro de contos Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca), fez um programa de governo para a Arena, o partido oficial do regime militar, a pedido de seu presidente, Filinto Müller, antigo verdugo do Estado Novo, e apoiou a candidatura de Paulo Maluf à presidência. Morto há 23 anos, perdeu a ascensão de Lula à presidência. Nada desautoriza a desconfiança de que teria se transformado num admirador irrestrito do atual presidente, fosse ele quem fosse.

Paulo Francis, se bem o conheci, continuaria um anti-Lula intransigente, explorando-lhe e mesmo exagerando-lhe os defeitos, mas com um pouco da cautela dos gatos escaldados. Nenhum de seus presságios vingou. Nem o “povão reacionário” conseguiu eleger Lula em 1989, nem os militares saíram do quartel quando ele derrotou José Serra. Francis previu que o Brasil, com Lula no Planalto, viveria “paralisado” por greves, “isolado do mundo” e correndo “o sério risco de se tornar o Sudão da América do Sul”, com uma inflação descontrolada e uma presença nula no comércio internacional. Bendita seja a opaca bola de cristal do Francis.

2 Comentários

  1. Elson Vitorio
    29 de agosto de 2010

    Final da coluna de François Silvestre no Novo Jornal, do domingo(29/08/2010)

    “Se houvesse bolsa família quando Lula era garoto, em vez de metalúrgico
    teria sido apenas um cachaceiro de botequim. E o Brasil
    não teria a era Lula. Essa lição de Laurence Nóbrega é um achado.
    Nossa estabilidade social é sustentada na esmola. Um mendigo
    faz mal a si mesmo. Uma nação mendicante faz mal à humanidade.
    Nunca sairá da pré-humanidade.
    E aceita viver sem educação, sem saúde, sem segurança, sem
    cultura. As alternativas são desanimadoras. É o passado se oferecendo
    como opção. Na disputa, não há futuro. É o presente não
    convincente contra o passado que não convenceu.
    Lula aposta no futuro que ele pensa ter edifi cado matando
    Getúlio, sepultando Jango e pondo fl ores no jazigo de Juscelino.”

  2. 3 de setembro de 2010

    Perfeito o texto. Sem mais.

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante