Ópio do povo

10 de junho de 2010 às 14:50 - 1 Comentário

Por Tullio Andrade
www.verborragicos.com

Uma vez ouvi alguém dizer que o futebol era o ópio do povo. Na época não dei muita atenção; afinal de contas o Brasil tinha acabado de se sagrar tetra campeão de futebol. Mas agora tantos anos depois e ao acompanhar toda a movimentação em torno da conquista potiguar de ser escolhida uma das sedes para a copa de 2014, começo a achar que o autor daquela frase não estava de todo errado.

Logo quando começaram as especulações sobre Natal ser sede da copa, minha primeira reação foram boas gargalhadas. “Ah, tá, Natal, essa cidadezinha do fiofó do Brasil vai muito ter condições de sediar uma copa!”. Me enganei. E o pior, quase me convenci de que os argumentos que todos (os políticos e os empresários) difundiam sobre os benefícios que o evento trará.

“A copa vai trazer mais turistas, mais empregos, vai modernizar as praças esportivas, vai valorizar a cidade etc. etc. etc.”. Quem não ouviu isso?! Tudo bem que a copa pode até trazer essa enxurrada de dinheiro que andam falando… Mas quem é que vai usufruir dessa grana? Eu é que não; pois não sou dono de construtora, nem sou político e muito menos empresário.

Na verdade eu fico com a sensação de que esse incremento na economia local vai apenas contribuir para aumentar ainda mais as diferenças sociais. Quem é rico, vai ficar mais rico; e quem é pobre vai ficar mais pobre! Mas no final todos ficarão mais felizes. Pelo menos é isso que afirma a matéria desse mês da revista Superinteressante intitulada “Copa deixa você mais pobre. E mais feliz”.

Baseando-se em estudos sérios sobre o impacto econômico que a realização da copa do mundo causa nas cidades sedes e na vida das pessoas, a matéria chega à seguinte conclusão: mesmo gastando mais do que arrecadando o povo ainda fica feliz. É a situação perfeita para políticos inescrupulosos se aproveitarem para “fazerem” seu nome, bradando aos ventos que ele, qual um herói, conseguiu trazer a copa do mundo para a cidade.

É assim que se faz política: gastando o dinheiro do povo e ainda deixando todo mundo feliz! Segundo a matéria, para a copa desse ano na África do Sul, já foram gastos quase dois bilhões de dólares; enquanto que a estimativa de turistas e lucros não chega nem perto disso. Mas por outro lado, pesquisas apresentadas na revista mostram que o nível de felicidade da população após sediar a copa do mundo aumenta vertiginosamente. Parece um paradoxo, mas é isso mesmo, ficamos mais pobres e achamos isso ótimo.

Começo a achar realmente que futebol é mesmo o ópio do povo; pois só em estado de êxtase narcótico é que é possível não enxergar que enquanto lá no estádio recém construído estão jogando os profissionais mais bem pagos do mundo, do lado de fora a cidade vai continuar a mesma, com os mesmos problemas sociais de antes. Afinal, mesmo a cidade ganhando uma praça esportiva novinha em folha, os barracos das favelas continuarão na mesma. Para esse pessoal a copa do mundo não vai trazer nada de bom. Eles não vão melhorar de vida, não vão ter grana para comprar os ingressos caríssimos e nem vão poder faturar um trocado na porta dos estádios, pois a Fifa não permite. Na verdade, essa parcela da população, que não vai usufruir de nada durante a realização da copa do mundo, é quem vai pagar a conta… E vão fazer isso com um sorriso de canto a canto do rosto.

1 Comentário

  1. Bethânia Lima
    10 de junho de 2010

    O texto foi na veia. Eu adoro futebol, assisto aos jogos numa empolgação e esculhambação ao mesmo tempo. Porém, a Copa em Natal, praticamente no meu bairro (moro numa avenida muito próxima ao Machadão), me deixa engasgada de raiva e tristeza. Não queria isso por aqui…não gosto nem de pensar no trânsito caótico, o custo de vida muito mais alto na cidade, a violência propagada, a exploração sexual (para todas as idades), a especulação imobiliária além dos limites e sem falar que dentro de ginásio assistindo aos jogos vão poder contar nos dedos os natalenses. Com todo respeito aos países e às seleções que cheguem por aqui…tomara que não joguem nem biloca e partam logo da cidade…

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
    • Jarbas Martins: Sai dessa, M.Couto. - À sombra da ditadura
    • Jarbas Martins: Tô contigo, Alex. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”