Os doidos do Alecrim

11 de julho de 2010 às 13:16 - 7 Comentários
Por João da Mata

Foto: Sandro Fortunato

Alecrim 100

Em toda cidade tem um doido. No Rio grande do Norte eles são de montão. Dizem que é a mania dos casamentos consangüíneos. No interior a população é menor – todos se conhecem – eles de destacam. Na capital são mais disfarçados.

Na Natal de antigamente foram muitos os doidos que fizeram a alegria da cidade e da meninada, que têm um pacto com o capeta. Pouca gente conhece os seus nomes de batismo. No Alecrim eles animavam as feiras e os dias pacatos. Muitos eram fascinados pelo movimento veloz.

“Cuíca” pedia esmolas e quando era agraciado batia forte com a cabeça na parede, no chão ou na carroceria de algum caminhão. Quando a ente dizia Cuíca, ele respondia ajuizado: – meu nome é Juzé.

“Lambretinha” gostava de fazer ponto na Praça Gentil Ferreira, onde algumas vezes fazia suas trapalhadas e necessidades. Numa cidade de pouco tráfego de automóvel, Lambretinha acelerava e corria célere feito uma lambreta pelas ruas da cidade. Gostava de chupar laranja mesmo misturada com água suja. Dormia em baixo das mangueiras de Maria Boa. Certa vez um cliente perguntou se era boa aquela dormida, e ele de pronto respondeu: – seria melhor não fosse o barulho das meninas.

Outro doido que andava correndo era “Velocidade”. Veado, assumido. Homossexual era pra gente granfina. Numa sexta feira Velocidade teve um banquete. Ao passear na companhia de um marinheiro numa sexta- feira, um menino que o conhecia brincou: – hoje é sesta-feira santa. Velocidade respondeu de imediato: – Marinheiro não é carne é peixe.

Muitos doidos eram deficientes físicos. “Maria sai da Lata” tinha um defeito na perna e pedia esmolas. Os meninos gritavam: – Maria sai da lata!

Ela dizia correndo com um cabo de bassoura: – Maria sai da lata é a mãe.

Geraldo de Lagoa Salgada parecia um cachorro, quando sentado. Andava de quatro por conta do defeito físico. Também corria muito e freiava como se fosse um carro.

Muitos outros personagens fizeram a alegria da cidade de Natal. A viúva Machado comia o fígado dos meninos. Cú de ouro foi um grande pianista.

A imperatriz do Brasil já não freqüenta o Teatro Alberto Maranhão. Zé Menininho não toca mais sua sanfona e passou a batuta para André Rabequeiro, que também faleceu.

A cidade perdeu seus doidos famosos. Os de hoje são enrustidos e sem graça. O mais famoso é um que anda ali pela cidade alta e não acredita em Deus nem em nada. E Deus, fulano!. Que Deus que nada, nunca ninguém me deu nada. Só se acalma quando recebe uma gorjeta

7 Comentários

  1. 11 de julho de 2010

    Olá, Tácito!
    Encontrei entre meus negativos uma foto do “velho da rabeca” (como meus amigos costumavam chama-lo) em sua calçada da cidade, cobrando dois conto por música. Aqui na minha galeria do flickr:
    http://www.flickr.com/photos/warjde/4783995930/

  2. 11 de julho de 2010

    João, parabens pelo texto, é um resgate da nossa doida infância alecrinense…
    Abração

  3. Luis Sávio Dantas
    11 de julho de 2010

    Querido João você se esqueceu de Corisco. A moçada gritava corisco pai do poço mãe da lua, e Corisco ficava enfurecido, e seu olhar era desesperado enquanto atirava pedras. O mais folclórico desse personagem, era o fato dele ser Aluisista doente. Então todos nós gritavamos para lhe desafiar, Corisco você caçou Agnelo! ele respondia que quem tinha caçado Agnelo era p.q.p. Agora o que mais deixava Corisco enfurecido era quando gritavamos: Coriisco voce beijou Dinarte! Aja pedras.

  4. João da Mata
    11 de julho de 2010

    Savio, bem lembrado. Obrigado pela saudosa lembrança. Vou incluir no texto

  5. Tânia Costa
    11 de julho de 2010

    Eu morava na Av. Rio Branco quase em frente ao colégio Winston Churchil. Conheci Lambretinha. Teve uma vez que, ele enfurecido saiu atirando pedras nos carros estacionados na Rio Branco até a Ribeira. Tinha a Maria Cachacinha, ela costumava sentar de pernas abertas nas calçadas sem nada por baixo do vestido. Eram os chamados papudinhos. Quando iremos no sebo de Vicente? Abraços,

  6. Rilder Medeiros
    12 de julho de 2010

    João, lembro agora de um personagem ainda vivo, mas esquecido e desconhecido pela maioria dos natalenses: Seu Ciço, apelidado de Urubu pelos meninos traquinas. Ao que me parece, ele tá beirando os 100 anos, diz que foi maestro de banda em Acari e todos os dias ia pra praça em frente à prefeitura de Natal. Lembro de encontrá-ló praticamente todos dias no ônibus 45 que me levava ao colégio na Ribeira. Seu Ciço tinha cadeira marcada. Era a primeira, ao lado do motorista. Quem sentasse nela teria que ceder o lugar ao ilustre passageiro. No fim da tarde, Seu Ciço ordenava às luzes da praça que acendessem e elas “obedeciam”! A turma adorava. Ele pode ser visto hoje, todos os dias, na rua Rui Barbosa, perto do IFRN.

  7. 12 de julho de 2010

    Pegando carona nos comentários, bom dia SP e… Tânia, já estava com saudades de você; das suas postagens bonitas, dos seus textos… Beijos. Boa semana para todos nós.

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante