Os incompreendidos

31 de maio de 2010 às 15:50 - 1 Comentário
Por João da Mata

Truffaut – Bazin

Uma obra prima do cinema e da Nouvelle Vague. Filme-poema dedicado ao grande André Bazin que havia lido o roteiro e morreria no primeiro dia da filmagem desse filme dirigido por François Truffaut. Um filme muito autobiográfico de alguém que ama o cinema, assim como o menino protagonista do filme, Antoine. Nada é perdido nesse filme que tem na sensibilidade e gestos do menino um tour de force. Só a juventude sem a couraça da idade pode moldar uma personagem com tal intensidade. “Os incompreendidos” teve a participação imprescindível do menino Antoine (Jean Pierre Léaud), participação decisiva no roteiro de Moussy e do Decae, na câmera. Um filme em cinemascope onde nada é perdido. Cada fotograma uma obra de arte. Até a cena dos pássaros voando ao serem atravessados pelo menino que roubava uma máquina de escrever é uma homenagem ao cinema, mesmo sendo supérflua no filme de Truffaut.

O jovem Antoine tem uma mãe ausente que mora com o seu padrasto. O menino é expulso do colégio e recebe umas tapas na cara do padrasto. Sua pena será como uma condenação á morte. Reclusão em regime fechado, trabalho forçado, etc. Só resta mesmo a fuga que finaliza esse filme comovente numa longa tomada do Antoine correndo em direção á praia da Normandia. Nenhuma emoção gratuita. O menino é responsável pelo grande sucesso do filme. O seu dialogo com a psicóloga é antológico. Nenhuma mentira. A Avó dele de que havia subtraído algum dinheiro entra na historia.

- Não esqueça de botar o lixo fora, diz o padrasto. Uma ordem que será repetida algumas vezes. O apartamento é pobre e todo o filme é rodado em ambiente natural, o que exige muito do câmera-men e do menino que diz para todos nós, adultos: DEIXEM de ser ridículos e hipócritas. Quando o menino leva porrada é como um soco no nosso estomago.

Sua mãe promete mil francos se ele escrever uma boa redação para escola. Antoine apela para Balzac e copia trecho de um dos seus livros. O truculento professor percebe e lhe adverte seriamente com uma nota zero. Zero também é uma alusão aos filmes “Zero em comportamento”, do Jean Vigo e “Alemanha Ano Zero”, de Rosselini. Filmes com a mesma temática do pos-guerra e do sofrimento infantil, muito apreciado pelo grande amante do cinema que foi Truffaut.

O altar que o menino faz para Balzac pega fogo. Ele não é beneficiado com os seus pequenos roubos. Um incompreendido pelos adultos e pais. A sua amizade com um amiguinho da escolha que o acolhe quando gazeia a aula é comovente. Colocado preso com outros delinqüentes maiores, só resta fugir. Uma longa fuga para a liberdade nesse grande hino ao cinema e a vida. UM DOS MAIORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS.

1 Comentário

  1. Luis Felipe Duarte
    1 de junho de 2010

    Que prazer em encontrar por aqui um elogio a esse filme maravilhoso! Também o considero uma das maiores obras de arte já produzidas na história do cinema – e da própria arte.

    Truffaut é um diretor absolutamente genial. O final de Os Incompreendidos – mencionado por João – é perfeito em minha opinião. O que senti durante o filme, sentimento que terminou por mergulhar no desfecho marítimo da história do menino Antoine, foi algo que considero inefável, uma ânsia de liberdade pelo pobre delinquente, por todos os incompreendidos, os reprimidos, os solitários, uma compaixão por todos nós e a nossa infinita miséria humana, um desejo de piedade por todos os adultos que são cruéis com a sensibilidade e a inocência dos jovens, piedade por todas as crianças torturadas – de corpo e alma – pelo triste mundo dos adultos.

    Ao final me encontrei, acima de tudo, comovido e encantado . Comovido diante da solidão total de Antoine em meio a um imenso e indomável mar. Encantado pela profunda liberdade de Antoine no desconhecido das águas salgadas. Encantado pela arte simples e bela de um filme que considero essencial.

    Aliás, do mesmo diretor, também adoro de paixão, principalmente, os filmes Jules e Jim e O Homem Que Amava As Mulheres. dentre inúmeros outros filmes fabulosos de Truffaut.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante