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Os nossos santos

Os nossos maiores heróis são homens de profunda convicção religiosa.

O sangue dos mártires santos ainda jorra na memória coletiva. O nosso solo foi sacralizado por esse martírio.
Em verdade, a fé católica iluminou a face dos nossos líderes. São raízes que florescem para assinalar a identidade norte-rio-grandense e brasileira. Assim, o guerreiro Felipe Camarão, que recebia os sacramentos e rezava antes das batalhas, abandonou o costume tribal, em que o chefe possuía muitas mulheres, e com Clara realizou o casamento cristão. Há dois séculos, o Padre Miguelinho foi fuzilado, conservando a sua fé intacta. Exercera sacerdócio exemplar. O Padre João Maria é santo canonizado pelo povo, que, por intermédio dele, recebeu graças e testemunhou milagres. O Padre Mota, juntamente com o cônego Amâncio Ramalho, desarmados, foi o grande defensor de Mossoró contra Lampião e seu bando de facínoras. A sua atuação foi inexcedível no comando da resistência.

Merece também a honra dos altares locais a assuense Lindalva Justo de Oliveira (1953 – 1992). A linda Lindalva dedicou a vida a seu Deus e à caridade. Por manter-se casta, foi assassinada com quarenta e oito facadas, por um apaixonado ensandecido. A justificativa do criminoso foi: “Nunca cedeu. Está aqui a recompensa”.

O martírio ocorreu na capelinha de Cunhaú, de Nossa Senhora, a 16 de julho de 1645. O sino foi derrubado. Serviu, durante anos, aos donos da fazenda. Uma das proprietárias cumpriu promessa doando-o a uma paróquia paraibana. E o sino – testemunho perdido – jamais foi localizado. Ele não toca mais repetindo o louvor de Dom Marcolino Dantas a Nossa Senhora das Candeias: “A voz do sino tão mavioso / canta teus hinos, Virgem famosa”.

Jacob Rabbi preparou a emboscada fatídica. Avisou aos moradores de que trazia instruções do Supremo Conselho Holandês e que fossem para a missa. Ao final da cerimônia, ele explicaria as ordens. Logo após a elevação da hóstia pelo velho sacerdote André de Soveral, os índios janduís, comandados por Jacob Rabbi, mataram todos. Há notícia de que apenas um dos fiéis conseguiu fugir. A primeira notícia do milagre espalhou-se pelo povoado e persiste até hoje. O vigário, sangrando, apoiou a sua mão na porta de pau d’arco: e a mão ficou gravada em baixo relevo.

Cerca de três meses depois, 3 de outubro de 1645, outra chacina aconteceu em Uruaçu. Entre os mortos, o Padre Antônio Francisco Ferro teve a cabeça partida a bastão. Acrescenta o preciso historiador, Monsenhor Paulo Herôncio em “Holandeses no Rio Grande” (1937): “Mateus Moreira quando lhe abriram as costas e tiraram o coração, ainda pode exclamar numa sublime expressão de fé: ‘Louvado seja o Santíssimo Sacramento’”. A causa de tudo foi o fanatismo dos conquistadores e a recusa dos habitantes de renegar os seus costumes e a sua fé.

Cunhaú, fora o primeiro engenho potiguar e o mais produtivo da nossa economia. Fundado pelo capitão-mor da Capitania, Jerônimo de Albuquerque, fez doação aos seus filhos Antônio e Marco. Na dominação holandesa (1634 – 1654), o engenho foi confiscado pelo sargento-mor Joris Garstman e palco de muitos prantos.

Hoje, Uruaçu e Cunhaú são chãos sagrados de acolhimento e prece, lugares em que é possível respirar um ar de esperança.

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Diógenes da Cunha Lima

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