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Os sentidos da perda e a perda do sentido

Antes do início da partida em que se defrontaram (em ordem alfabética) Bélgica e Brasil, neste 6 de julho de 2018, pensei com meus botões que a seleção brasileira, entendida como fração (altamente) representativa do povo brasileiro, não dispunha do respaldo moral necessário, e que só esse povo pode lhe conferir, para vencer o jogo e permanecer na disputa. Não é a vitória que qualifica o competidor, são suas qualidades, pessoais e coletivas – no caso do futebol –, que valorizam – e até enobrecem – a vitória, por mais modesta que seja. Qualidades, de natureza moral, que constituem, a meu ver, ao mesmo tempo a condição e a justificativa ética de qualquer vitória digna desse nome.

(Abro parênteses para observar que a ideia de competição, que governa os negócios, os esportes, nosso comportamento no trânsito, em todos os níveis da escolaridade, e se infiltra em nosso modo de amar e querer, não me é nem um pouco simpática. Desde que li um artigo do geneticista francês Albert Jacquard, compreendi que só haverá para nós, enquanto espécie, alguma esperança de futuro se formos capazes de trocar a competição pela emulação, em nossas práticas quotidianas, em nosso espírito e como critério de nossos valores. Ou seja, se formos suficientemente inteligentes, solidários e habilidosos [quando o seremos?] para colocar nossos esforços a serviço do bem comum, planetário, combatendo em toda parte, direta ou indiretamente, as desigualdades e as injustiças. Quanto a mim, a competição me enfastia ou me aborrece.)

Desde o golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016, que nocauteou a (fragílima) democracia brasileira, abrindo caminho para o caos institucional de agora, temos sido incapazes de nos unir, enquanto povo, para resistir ao novo arbítrio e impedir, por exemplo, o sucateamento e a venda a preço vil de empresas e riquezas nacionais que nos pertencem, a nós, povo brasileiro. Tornamo-nos um povo sem projeto comum, sem qualidades. É que, embora não tivesse cometido nenhuma falta gravíssima, nosso povo foi discricionariamente expulso de campo, e não pôde ver o final do jogo interrompido, muito menos festejar qualquer vitória sua, ainda que parcial.

Como poderíamos nós, nessas circunstâncias, representados, na Rússia, pela seleção canarinha e pelos torcedores brasileiros que lá se encontram, fração e metonímia da população empobrecida, dividida e alienada que somos agora, conquistar sobre a seleção belga (ou qualquer outra) uma vitória que, mesmo depois de alcançada, seria“exótica”, sem correspondência com a situação aflitiva e dramática vivida por nosso país e pela quase totalidade do seu povo? Em que húmus desvitalizado, privado de seus nutrientes essenciais, pode germinar e crescer um jequitibá?

Das duas, uma: ou a equipe capitaneada por Tite e os afortunados torcedores que puderam custear sua viagem à Rússia estão acima, como beneficiários dos privilégios, da imensa maioria de seus compatrícios, ou abaixo deles. Abaixo – sendo inaceitáveis os privilégios – dos milhões de indivíduos que não têm terra para cultivar nem chão onde lhes seja possível firmar os pés, no sentido próprio e no sentido figurado. De nenhuma dessas alternativas podemos nos orgulhar. Não é, portanto, ironia se foi pelos pés dos nossos jogadores, brasileiros de certo modo privilegiados, pois têm a garantia de que o chão (gramado) não lhes fugirá dos pés, que o hexacampeonato esquivou-se mais uma vez da imensa torcida brasileira.

Mas é preciso lembrar que a derrota sofrida pela seleção de Tite no Arena Kazan é própria da rotina – e do espírito – de qualquer torneio ou competição. Foi nas ruas das cidades russas, do lado de fora dos estádios, que perdemos feio. Todos sabemos o que aconteceu: uma horda escarninha e enfurecida de torcedores brasileiros, pertencente à elite econômica do nosso país, humilhou e ofendeu uma cidadã russa, levando-a, a pretexto de lhe ensinar o português, a repetir, em uníssono com seus agressores, uma ofensa-em-forma-de-slogan, típica das redes sociais em que se formam a cultura pessoal, as convicções e a civilidade daqueles torcedores.

Perdemos menos, portanto, dentro do estádio em que a seleção brasileira foi derrotada pela seleção belga do que fora dele. Temos perdido muito mais por aqui, a 14.450 quilômetros de lá, e não conseguimos enxergar o perdido, habilmente subtraído, pela atuação das mídias corporativas que detêm o monopólio das comunicações em nosso país, ao nosso olhar e ao nosso entendimento.

A diferença, no caso das competições esportivas, sobretudo as internacionais, é que derrotas e vitórias tornam-se, de acordo com os interesses de cada um dos lados, extremamente visíveis. Suas imagens “viralizam”, replicadas ad nauseam, mobilizando a atenção de populações inteiras de usuários e suscitando as reações mais diversas, do aplauso à indignação. A tremenda derrota brasileira fora do estádio, no campo da civilidade sem a qual não é possível a democracia, é que nos deve causar vergonha e nos levar a refletir; a outra, não.

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