Poesia

Os Tons Mais Escuros

klim

As mulheres de Klimt e Modigliani
também são longilíneas, lindas
De braços e mãos e dedos
tão compridos
Como se quisessem abarcar mundos,
amores,
e sensações suspensas no ar

Seus sentidos bem que pressentem
a rotação da terra,
a direção dos ventos,
o desejo impregnado
nos amantes,
Tão minuciosamente
como a um perfume derramado
ao acaso:
envolvente, íntimo, sensual

Gestos tão poucos e contidos,
Tímidos?
Sinais (inconstantes) de enamoramento
Tais vagalumes – luz a acender e a apagar
Onde o que hoje é, pode não ser amanhã
E o que parece agora, se dilui brevíssimo,
Incerto como a luz dos amanheceres

Se a sentimentalidade ondula
entre o líquido e o evanescente,
a ocupar o vão das coisas, o oco,
(com a sofreguidão do homem e mulher que se fundem),
O querer lança aos ares suas fitas rubras,
ao abandono do mundo, das horas,
E inicia dança pra só findar
num ‘pas de deux’ amoroso.

Pensar que a vida é pouca, como?
Um corpo em direção a outro corpo
e um perfume no ar a inebriá-los
(tal abelha que a outra atrai
pelo mel e encantamento),
Até ficarem face a face,
e desmaiar amorosos de prazer,
um dentro do outro, enlinhados,
repetindo-se tanto e tanto,
cativos dos tons
mais escuros do querer

Acordar em que nuvem, em que década,
Ressaca de quarta-feira de cinzas,
– Será que é preciso acordar? –
A boca seca de mil beijos e sussurros
Restos de palavras belas e profanas
nos quatro cantos da cama
E o pressentimento de um desejo que vem
que volta, que nunca deixou de existir
E não se basta com a carne de éter
do sonho
(que acaba de abrir os olhos).

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