Os vieses do amor

30 de maio de 2010 às 23:09 - 8 Comentários
Por Tânia Costa

Para meu amigo Eduardo

Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem. Friedrich Nietzsche

Havia quase uma década que eu estava com o Victor, por quem nutria verdadeira paixão.
Chegava a ser vício o desejo que sentia por ele. Seu cheiro, sua pele, o odor que exalava das suas axilas, cheiro bom de homem! Tudo nele me excitava e rescindia a sexo …

Eu só pensava “naquilo” o tempo todo. E por “aquilo”, cometia as mais inventivas e insensatas “loucuras de amor”. E Victor embarcava em todas elas.
Até que um dia algo aconteceu que imprimiu um novo rumo às nossas vidas.
Algo que fez com que eu revelasse uma faceta da minha natureza que eu não haveria de supor existir.
É melhor que eu conte logo antes que os detalhes esfumem-se frente ao caráter intermitente das recordações. É o que vou relatar agora!
Sempre escutei dizer por aí que a vingança é um prato que se come frio. De minha parte, não foi bem assim que as coisas aconteceram…
Morava em uma casa que abrigava na parte térrea o escritório do meu marido Victor, que era advogado. Entre idas e vindas, sempre encontrava uma colega sua, também advogada. Intrigava-me o fato de, nessas ocasiões, ela fazer questão de frisar que estava com muito trabalho em seu escritório. Eu me perguntava: Então, por que está sempre aqui? Comecei a ficar intrigada.
Um dia desci para chamá-lo para o almoço e, chegando lá, antes que tivesse tempo de bater à porta, esta se abriu e lá estava ela saindo, acompanhada por ele. Ao ver-me, não me encarou e serpenteou com o corpo, evitando tocar em mim. O desenho sinuoso de uma cobra passou como um flash em minha mente.
A partir deste dia fiquei com as “antenas” bem ligadas. Igual a bicho quando fareja o perigo iminente.
Uma noite de domingo cheguei mais cedo em casa e fui direto para o quarto.
Passado algum tempo, escuto o barulho do portão abrindo na parte inferior. Imaginei tratar-se de Victor que chegara e, certamente, deveria ter ido concluir algum trabalho em seu escritório.
Após um quarto de hora, desço para ir ao seu encontro. Ao chegar à frente do portão, deparo-me com gemidos vindos lá de dentro.
Desesperada, corro, dando a volta ao redor da casa até chegar à janela que ficava do outro lado e, na ponta dos pés, me penduro.
Vejo Victor da cintura para cima, em pé, completamente nu em movimentos compassados de vaivém.
Victor transava com alguém! Eu não consegui ver quem era.
Desesperada: _ Meu Deus! Mas quem será?
Grito para que Victor abra a porta. Silêncio…
_ Victor, abra! Gritei novamente, e nada. Nenhuma palavra.
Quanto mais chamava, mais silêncio se fazia ouvir lá dentro. Insisto. Deixo claro que não vou arredar o pé dali até que ele saia.
Fico à espera ao lado do portão até o momento em que ele chega, cabisbaixo.
_ Quem está com você? Victor não responde.
_ Vou ficar aqui. Uma hora ela vai ter que sair.
Passado um bom tempo, ela aparece. Olha-me furtivamente e ligeira vai embora.
Lembrei do movimento sinuoso da serpente que vira dias atrás, era a própria.
“Uma cobra me picou”! É Rosa!
Depois, já no quarto, não preciso dizer que, enfurecida, chorei, xinguei, esmurrei, e ele, passivo, sem esboçar reação ou dizer palavra, nenhuma explicação.
O que mais me indignava era o fato de tê-la trazido para o mesmo espaço em que morávamos. Quando falei isso, ele veio com essa: _ Quer dizer que se fosse em qualquer outro lugar, tudo bem! Não acha isso hipocrisia?
_ Ah, isso não! Eu não concordava com ele. Só que, trazer em casa, era de um peso muito maior.
Passei a dormir em outro quarto. Cogitei ir embora e, por vários dias, evitei dirigir-lhe a palavra.
O veneno da amargura abrigou-se em mim. Assim, a idéia da vingança foi se assomando dia após dia.
Não sei ao certo quanto tempo se passou, até o dia em que ocorreu um evento em nossa casa, e diversas pessoas vieram, inclusive ela, com o namorado que acabara de sair do hospital onde estivera internado por algum motivo que ignoro.
Eu servia vinho aos convidados e, ao passar em sua frente, ignorei-a e ofereci ao seu namorado. Ela sorriu sem graça. Aproveitei o momento e, de súbito, disparei: _ Mas você não tem vergonha na cara, não é mesmo? Bela cara de pau a sua. Pego você trepando (de forma proposital utilizei este termo!) com Victor em minha casa e você ainda volta aqui! Você é muito descarada.
Seu namorado, estarrecido, quedou paralisado, tamanha a surpresa. Parece que demorou a entender o que se passava. Minutos depois, o vi sair feito um foguete com ela correndo atrás.
Naquela mesma noite, na cama com Victor, exultante, transbordando de satisfação, contei-lhe o que acabara de fazer. Ele pareceu não se abalar nem um pouco. Demonstrou indiferença em relação àquela. Isso sim me surpreendeu, fazendo-me refletir sobre a frieza com que os homens tratam desses assuntos.
Mas que me importa! De minha parte, experimentava um sentimento novo, prazeroso… Fazendo com que eu desconhecesse a mim mesma.
Cavalgando sobre Victor, umedeci os lábios com a ponta da língua, deixando escorrer um fio de saliva boca abaixo e, languidamente, falei: _ Sabe o que é isso? É veneno. Ofereci-lhe minha boca que, entreaberta, foi sorvida por Victor. E ciciando-lhe ao ouvido: _ Ah, meu amor! Nunca pensei que a vingança pudesse ter esse sabor, amarga e doce ao mesmo tempo.
Victor completamente entregue…
Victor só para mim…
Vertiginosamente sorvido…
Victor meu amor!…
Pudesse morrer, não morria, imortava…
…………

Bem que essa história poderia terminar aqui não é mesmo?
Mas por que, se eu posso ir ainda mais longe? Pois foi exatamente o que fiz.
É, meu caro leitor! Eu ainda não estava satisfeita, queria mais. O melhor da festa ainda estava por vir. Como já foi dito antes, a vingança é um prato que se come frio. Pois, em vez de frio, eu preferi oferecer um prato quentinho, quentinho…
_ Sabe Mário, melhor amigo e parceiro de trabalho de Victor? Aquele que andava sempre lá em casa!
Embora discreto, não me escapou. Quando me olhava, sutilmente despia-me com o olhar.
Então, você acha que essas coisas passam despercebidas a uma mulher?
Pois bem! Dei início a um jogo de sedução igual cobra quando quer engolir passarinho e o hipnotiza. Não demorou muito para atraí-lo para a cama (do casal, claro!).
Nessa ocasião, vesti uma sensual lingerie vermelha e dancei para ele como fizera muitas vezes para Victor.
Dancei ao som de Marisa Monte.
Assim! Volteando os quadris e os ombros em movimentos compassados de um lado para outro:

“Bem que se quis
depois de tudo ainda ser feliz
mas já não há caminhos pra voltar.
E o que é que a vida fez da nossa vida?
O que é que a gente não faz por amor?

Mas tanto faz,
já me esqueci de te esquecer porque
o teu desejo é o meu melhor prazer
e o meu destino é querer sempre mais,
a minha estrada corre pro seu mar

Agora vem pra perto vem
vem depressa vem sem fim, dentro de mim
que eu quero sentir
o teu corpo pesando sobre o meu,
vem, meu amor, vem pra mim,
me abraça devagar,
me beija e me faz esquecer…”

Dançando e tirando lentamente peça por peça, atirei uma a uma sobre Mário até o momento em que nada restou sobre meu corpo.
Nuinha, em pelo, caminhei devagar até ele, aproximei- me e, de joelhos sobre a cama, empurrei-o delicada e firmemente. Enlacei suas pernas sob as minhas. Dirigi e atuei na cena…
É claro que depois compartilhei com o meu amado minha pequena infidelidade, senão que graça teria?

“O anel que tu me deste era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou…”

8 Comentários

  1. 30 de maio de 2010

    eu ia lendo, lendo… jurava que a que sua persona ia “pegar” a amante do marido.. hahaha…

    mas vc diz da frieza com que os homens tratam certos assuntos. já ouvi muito que as mulheres transam quando se envolvem, os homens pelo puro sexo. assim como a mulher tem medo que o marido se apaixone por outra, enquanto o homem que ela transe. sei lá, isso tudo é muito misterioso. quanto a mim, sem sentimentos de posse, mas preferia não saber.

    ah, tânia, é bom ler a sua prosa :)
    beijos.

  2. João da Mata
    31 de maio de 2010

    Tania, Querida
    Que foto linda! Seu texto provocador.
    Voce adora brincar, né.
    Continua abrindo caixas. Imagine quando aarir a de Pandora.
    Leia um post meu (aqui no sp ) sobre Lous Andre- Salomé, Nietsche e Rees.
    Conforme um amigo meu que voce tb conhece:
    Corno é uma questão de vocação.

  3. Ricardo Maciel
    31 de maio de 2010

    Querida Tânia!

    Parabéns pela forma emocionante e envolvente que voce conseguiu escrever seu texto! Começei lendo e não consegui mais parar… Haja força, coragem e sinceridade para a incrível conclusão dessa delicada passagem….

    Grande Abraço!

  4. Ricardo
    31 de maio de 2010

    Maravilha a cada texto uma história de encantamento, a cada dia eu fico mais admirado pela sua forma de ver o mundo poeticamente…falar do adutério, do amor, do outro com uma forma prazeirosa!

    ADUTÉRIO

    Adultério, troca de experiência
    Com o corpo mais próximo.
    Adultério, forma prazerosa
    De viver a três.
    Adultério, brincar de esconde-esconde
    De maneira luxuosa.
    Satisfazer o meu eu com o seu…Adultério!

  5. Ricardo
    31 de maio de 2010

    (considere este com correções).

    Maravilha a cada texto, uma história de encantamento, a cada dia, fico mais admirado pela forma de ver o mundo poeticamente…fala de adultério, do amor, do outro com uma forma prazerosa.

    ADULTÉRIO

    Adultério, troca de experiência
    Com o corpo mais próximo

    Adultério, forma prazerosa
    De viver a três.

    Adultério, brincar de esconde-esconde
    De maneira luxuosa.

    Satisfazer o meu eu com o seu…Adultério!

  6. Eduardo
    31 de maio de 2010

    Valeu, Tânia.
    Você está se saindo ótima como cronista. Não sei se sou o Eduardo a que você dedica o texto, mas me senti contemplado.

    Da mesma forma que a protagonista “dirigia e atuava na cena”, essa completude também se observa no texto, pois dá uma volta completa em torno do tema central, que é o adultério, saindo da suspeita, partindo para a investigação, constatação, declaração, desmascaramento, armação, execução, informação.
    Esta novela foi boa, mas vivê-la na pele dos(as) protagonistas é barra. rs
    Aguardo os próximos capítulos.
    Beijos
    Eduardo

  7. Ednar Andrade
    31 de maio de 2010

    Tânia amiga, se vingança é um prato que se come frio, o teu foi flambado. Dá pra ver as chamas, quentinho, quentinho… Só faltou o chocolate quente. Poesia e prosa fizeram-se presentes no teu texto, tão bem elaborado.

    Tânia, tenho certeza que já te agradeci, mas no caminho a postagem perdeu-se, pois não consigo visualizá-la no SP. De toda forma, já fiz contato com Zanoni (encontrei-o no facebook) e a ti sou muito grata, deste-me um presente, pois Zanoni é um daqueles amigos que o Milton Nascimento cantou tão bem: “Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração… Mesmo que o tempo e a distância digam não!”. Mais uma vez, obrigada querida.

  8. Jonas Bezerra
    31 de maio de 2010

    Tânia, Tânia…
    Assim você vai deixar muita gente louca! Hum… Depois não reclame!
    Brincadeira, amiga!
    Você conseguiu com palavras concretizar o desejo, a traição, a culpa e a vingança. Estes, ingredientes perfeitos para um conto trabalhado com a experiência e sensibilidade de alguém muito sagaz.
    Mas eu gostei da carreira dada pela amante atrás do namorado, que saiu correndo como um foguete rsrsrs. Só você mesmo pra quebrar dogmas dessa forma que lhe é peculiar…
    Muito prazerosa a leitura!
    Obrigado.

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    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

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    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
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