Os zines e a experiência de si

Cellina Muniz
Artes VisuaisDestaque

No último sábado, dia 22 de julho, aconteceu o ótimo “Estados em Poesia”, no espaço cultural Zé Reeira, ali na rua Professor Zuza, ao lado do Instituto Federal da Cidade Alta.

Cheguei lá para dar uma espiada e ver o que a nossa linda juventude anda aprontando em termos de criação literária. Segundo o site de financiamento coletivo (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/estados-em-poesia-natal-rn), trata-se de “um projeto COLABORATIVO de zona literária itinerante que, idealizado em parceria com poetas, coletivos, saraus e movimentos literários da cena contemporânea, objetiva possibilitar o encontro de poetas de diferentes localidades”.

Fui lá querendo reencontrar o colega Mardônio França, lá de Fortaleza, parceiro na Revista Pindaíba, e também ouvir Marize de Castro falar sobre sua poesia, coisa que ainda não tive oportunidade de desfrutar. Não encontrei nenhum dos dois, mas vi (e também quase consegui ouvir plenamente) duas mesas interessantes, além de outras coisas que reforçam algumas ideias minhas sobre os circuitos “paralelos” de produção e circulação da escrita literária.

Digo paralelo por falta de termo melhor, talvez, pois, para mim, está tudo misturado no mundo, é um grande e complexo caldeirão e não penso como fenômenos necessariamente antagônicos (há ainda quem acredite que Universidade e Rua são necessariamente dicotômicas). Em paralelo aos circuitos “oficiais”, digamos assim, outras coisas estão acontecendo, em outras instâncias. Quero dizer: para além das estantes das livrarias, dos livros indicados por professores e críticos literários, das listagens de dez títulos mais lidos, do que se conversa nos chazinhos dos imortais da Academia Norte-rio-grandense de Letras, tem gente fazendo e acontecendo literatura no mundo. Quem tiver olhos que saiba ver. E ler.

Então fui xeretar e cheguei junto à banquinha onde os autores expunham suas criações em forma de livros, (fan)zines e outras milongas que suas imaginações permitem criar. Só a encadernação – bruta e sincera – da antologia com textos de alguns d@s poetas envolvidos ali no evento me ganhou prontamente (pena que, quando a vi, eu já estava desfalcada e não pude adquirir, mas ainda tenho esperanças de tê-la para mim). Muita coisa legal que não conhecia, como Fred Caju, cujos contos vou começar a ler/aprender. Mas aqui vou comentar, na minha opinião pessoal e intransferível, isto é, sempre parcial, alguém que realmente anda me comovendo: Victor H Azevedo.

Capa e quarta capa do ótimo título de Fred Caju

De Victor H Azevedo eu já acompanhava um pouco de sua escrita, sobretudo via Facebook. Ele não só é poeta, como também tradutor e inclusive expôs alguns zines com suas traduções. Eu já sabia que, com sua tenra idade (ah, meus vinte anos…), ele é bem danado. Mas os zines dele que vi e adquiri naquele evento me conquistaram de uma vez.

Não importa se a Companhia das Letras o desconhece. Não importa se ele não está na cabeceira daquele bam-bam-bam das letras locais (Lima Barreto era também, em sua época, um quase anônimo que para publicar apelava para os pseudônimos e hoje, quase cem anos depois de sua morte, é mote para a FLIP, o evento mais canônico do campo literário nacional). Victor H Azevedo existe e faz de sua existência uma experiência literária.

Uma das minhas pequenas teses sobre a escrita literária em geral e os zines em particular é de que se trata de uma forma peculiar de ser e estar no mundo. Um pouco amparada em Foucault e Larrosa, penso que a ação de mobilizar várias táticas para materializar esses pedaços de sonho e de papel me parece ser uma maneira pela qual determinados indivíduos constituem-se intensamente em sujeitos da experiência, isto é: aquilo que se vive, se sofre e se goza, transmuta-se em arte. A experiência de si. Essa forma de ser/estar no mundo e manifestar isso literariamente. E eu fico fascinada imaginando os recursos e as situações através das quais Victor H Azevedo e tant@s outr@s devem fazer uso para poder marcar, sob alguma medida, seu lugar nesse caos que é o mundo.


Apesar do que diz aí acima a capa de um dos zines dele (um desdobramento do Poema/Processo?), acho que Victor H Azevedo sabe sim o que fazer consigo mesmo: transforma sua vida em escrita (a relação “bio/gráfica” de que fala Mainguneau?) e diz sim para o mundo. Sim! Parece que ele está a gritar: pra vida eu digo sim! E que se dane se não há reconhecimento e visibilidade maior, que se dane se não há retorno financeiro, que se dane se este projeto de resenha não entende nada, ele está aí, na cidade e no mundo, teimando em resistir.

Quando eu falei mais acima da nossa linda juventude eu fui literal. Refiro-me não à idade (já vi jovens tão velhos…), mas à lindeza do espírito jovial. Esta condição de arriscar-se, de ousar, de, parafraseando Nietzsche, topar a vida como uma grande aventura para, continuamente, tornar-se o que se é.

E, para além da sua vontade de potência poética, Victor tem efetivamente talento poético. A força de alguns de seus versos suscita imagens e conceitos impactantes como uma pedrada no juízo, como estes, do zine “Ao vivo do deserto”:

ordenhar pedras

extrair delas o sumo
que os pássaros usam
para triturar o voo
e digerir a brisa

cimentar o suor

nas paredes da casa
torná-las mais sólidas
para o mês das andorinhas
torná-las também um reflexo
quase fidedigno
da nossa biografia

dar nome a um gato paisano
que me olhou
como se eu seu irmão sanguíneo
que nunca mais verei na vida.

Enfim, eu poderia ainda fazer desfilar aqui mil argumentos que me persuadiram e convenceram de que Victor H Azevedo e seus zines são ótima dica de leitura (para dizer o de menos). Evidentemente, sua criação não se reduz a nenhuma interpretação crítica e professoral. Mas como eu estou neste planeta para aprender, finalizo estas minhas impressões dizendo que um elemento que aquece meu coração em sua poesia é o humor. Bebo, pois, na fonte de sua sutil ironia que quebra com o que se esperava, rompe com o que era previsível e faz ranger os sentidos. Avante sempre, jovem Victor H Azevedo!

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Cellina Muniz

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