Outras formas de morrer
27 de fevereiro de 2012 às 18:41 - 3 Comentários“A minha morte nasceu quando nasci”
Mário Quintana
“E porque esse avião tinha de cair logo com você dentro? Você acha que não tem direito à felicidade?” Foi essa a pergunta que Liberta, jovem paciente de primeira análise, ouviu do terapeuta, quando lhe segredou que estava com medo da viagem de férias. A moça tomou um susto. Nunca tinha pensado seus medos por esse ângulo, mas… Era verdade. Sempre quando se prenunciavam alegrias, rugia de dentro um pavor de que as coisas dessem errado. E esse foi só o começo. Depois foi compreendendo que, algumas vezes, as coisas davam errado mesmo, mas era porque o medo, de tão grande, acabava fazendo com que ela se boicotasse. Ela ficara mestre na arte dos recuos. Acabava sempre “botando areia” e não realizando as coisas pretendidas, por medo de não darem certo. Naquele tempo, Liberta me falou da teoria dos dois medos e dos pequenos suicídios. Deixo a palavra com ela:
“Os dois medos, um se contrapõe ao outro. Um libera adrenalina, impele, faz a gente querer sair dele. Esse não nos interessa agora, é o medo bom. O outro paralisa, faz a gente mergulhar nele. São dois sentimentos muito diferentes, nem sei o porquê de terem o mesmo nome de medo. O medo paralisante faz a gente deixar de querer, faz a gente se boicotar. O medo paralisante faz a gente cometer os pequenos suicídios.”
“Não são tipos de suicídios que matam, como o suicídio comum. Não são matadores de corpo, pelo menos no princípio. Matam partes imateriais da pessoa. Cada vez que a pessoa abre mão do querer, ela morre um pouco. Às vezes, nem percebe, mas está se ferindo a si mesma, mais até do que se o mundo lhe ferisse.”
Ela me disse que gostava de um verso de Breton: “Talvez te firas nos meus destroços”. Melhor, dizia ela, do que ferir-se nos próprios, os destroços do arrependimento. “Às vezes o não que você diz a si mesmo é imenso, irreversível, e você só vai se dar conta depois.”
“Os pequenos suicídios são, no mais das vezes, atitudes inocentes. Você não percebe a sua contribuição para a própria dor. E ainda procura culpar o incauto mais próximo.”
“Há pessoas que jamais vão se separar da atitude suicida. Ela estará sempre voltando, a cobra engolindo o próprio rabo, o próprio corpo, a própria alma. O círculo do infinito, do eterno retorno, do sofrimento.”
“Por essas e outras, é bom perder a inocência de si mesmo. Romper com os pequenos aniquilamentos, com os boicotezinhos diários que vão tecendo teias de amargura dentro de nós. Quem mata o corpo, às vezes, está querendo é salvar-se de si. E se não aprendermos a dizer sins bem ditos e benditos, poderemos nos transformar em prisões para nós mesmos.”
Bem ou mal, aqui está o que ouvi de Liberta, a moça.







3 Comentários
Carmem, belo texto.
O maior suicídio é abrir mão de princípios por temer se isolar, ficando com o rebanho.Quando se busca a individuação percebe-se que viver é morrer,e que as perdas,mortes parciais,constrói o nosso crescimento e maturidade. A morte física é libertação, pois nascemos para morrer.Parabéns pela crônica.Um abraço.
Grata, amigos Anchieta e Belchior. Abraços.