Padre Cícero do Juazeiro

Manoel Onofre Jr.
Destaque

A leitura recente do livro “A Sedição do Juazeiro”, de Rodolfo Teófilo, fez-me lembrar de um artigo de minha autoria sobre o Padre Cicero do Juazeiro, publicado no jornal Tribuna do Norte, de Natal, em 21 de julho de 1974, do qual transcrevo aqui o seguinte trecho:

Muito se tem escrito sobre o Padre Cícero do Juazeiro. O tema é fascinante não apenas pelos aspectos contraditórios da personalidade do “santo”, mas, principalmente, por ser este uma figura-chave para explicação de fenômenos sociais e políticos em determinada fase da História do Nordeste.

No cenário agreste do sertão cearense (zona do Cariri), Padre Cicero Romão Batista tornou-se líder, ou melhor, semideus de uma gente encurralada em condições infra-humanas. Ele tudo conseguiu à custa da ignorância e credulidade desse povo. Com efeito, afirmou-se social e politicamente ao incentivar a crença popular nos “milagres” acontecidos com a beata Maria de Araújo, pretensas transformações da hóstia em sangue divino.

Ídolo, trazendo nas mãos as rédeas do poder em Juazeiro, a ponto de intitular-se “prefeito, juiz, delegado e carcereiro”, Padre Cicero pouco ou nada construiu de duradouro em beneficio dos seus fanáticos. Limitava-se a exercer um paternalismo, quase sempre afetuoso, mas efêmero. A propósito Otacílio Anselmo em seu livro “ Pe. Cicero – Mito e Realidade” ( Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968), afirma:

“Enquanto nos sertões de Alagoas, Delmiro Gouveia dominou o meio para realizar autêntica obra de pioneiro no progresso industrial, que somente o gênio seria capaz de conceber, no Cariri, o Pe. Cicero instrumentou o ambiente para fundar o maior centro de fanatismo religioso do País, numa ampla manobra para alcançar fama e riqueza”

Nas mãos de Floro Bartolomeu, um aventureiro típico, Padre Cicero tornou-se instrumento a serviço do coronelismo, nefasta “instituição”, então, dominante no meio sócio-político do Nordeste. Em tal situação, feito joguete, chegou a convulsionar o Estado do Ceará quando consentiu que se pusessem os jagunços em pé de guerra contra o Governo Franco Rabelo, afinal derrubado, não sem antes derramar-se muito sangue.

Pois esse controvertido vulto, que muita gente boa considera santo, não poderia deixar de ser motivo apaixonante de estudo, especialmente porque anda hoje se faz sentir a sua influência na massa rural do Nordeste. (A este trecho segue-se bibliografia sobre o padre, comentada).

************

Hoje, refletindo sobre o que escrevi há 43 anos, vejo que fui um tanto severo ao julgar o patriarca de Juazeiro. É que eu, então, havia terminado de ler, vivamente impressionado, dois livros, que se constituem em verdadeiros libelos: “Juazeiro do Padre Cicero”, de Lourenço Filho (Rio de Janeiro, 1926), e o já citado, ‘”Pe. Cicero- Mito e Realidade”, de Otacílio Anselmo, este um cartapácio de 586 páginas, muito bem documentado, com apresentação de Nelson Werneck Sodré.

Creio que, no julgamento do patriarca, deve-se levar em conta fatores da maior importância, como o tempo e o meio em que ele viveu. Pe. Cicero, ao que tudo indica, era portador de QI mediano, e não teve boa formação cultural; faltavam-lhe descortino e atributos outros para superar as limitações do tempo e do meio. Sem dúvida, era um homem bondoso, receptivo, conciliador. E, como tal, foi muito “explorado” por elementos de sua entourage.

Sobre o seu papel histórico, seja como religioso, santo canonizado pelo povo, seja como político, há uma vasta bibliografia, dividida em prós e contras, da qual destaca-se, além dos livros mencionados, os seguintes: “Cangaceiros Fanáticos”, de Rui Facó (Rio de Janeiro, 1963); “Padre Cicero- o Santo do Juazeiro”, de Edmar Morel ( Rio de Janeiro, 1966, 2º ed); “Milagre em Joaseiro”, de Ralph Della Cava ( Rio de Janeiro, 1977); “Pretensos Milagre de Juazeiro”, do Pe. Helvidio Martins Maia( Petrópolis, 1974); “A Terra da Mãe de Deus”, de Luitgade de Oliveira Cavalcanti Barros ( Rio de Janeiro, 1988 e “Padre Cicero_Poder, Fé e Guerra no Sertão”, de Lira Neto ( São Paulo, 2009.)

Anteriormente ao livro clássico de Lourenço Filho, surgiram diversos depoimentos e pesquisas, um deles publicado no próprio teatro dos acontecimentos, outro, de autoria de um dos principais personagens. Câmara Cascudo, cita-os no “Dicionário do Folclore Brasileiro”, verbete “Pe. Cicero” ( Belo Horizonte, 1984 – 5º ed.).

Em outro livro de sua autoria, “Vaqueiros e Cantadores” (Porto Alegre, 1939), Cascudo estuda a presença do Pe. Cicero na literatura de cordel, dedicando-lhe nada menos que 12 páginas. Transcreve versos populares e tece considerações sobre a figura do taumaturgo, das quais se destaca o seguinte trecho:

“Dominador de valentes , guia de guerrilhas, decididor de eleições, dono de riquezas, ficou vivendo sem fausto e alarde, conservando-se em pureza eclesiástica. Sua vaidade era dizer-se influentíssimo em acontecimentos inteiramente acima de sua fama(…) Simples, afável, acolhedor, caritativo, nunca atuou como uma força civilizadora. Não educou nem melhorou o nível moral do seu povo. Antes , desceu-o a uma excitação febril, guardando segredos de perpétua irritação coletiva, para mais decisiva obediência geral”.

NOTA CURIOSA

A parte inicial deste artigo foi publicada no suplemento “TN Revista”, do jornal já referido. Na edição seguinte saiu uma nota da redação, que convém transcrever a titulo de curiosidade:

“Domingo passado publicamos um artigo de Manoel Onofre Júnior, sobre o Padre Cicero Romão na literatura. E a repercussão parece que foi além do que se esperava, pois uma carta endereçada ao autor chegou à redação assinada não por um critico de literatura ou leitor comum, como era de se esperar, mas pelo próprio padre de juazeiro, que morreu há dezenas de anos.

Segundo o espirita Lourival Rodrigues, no dia 21, o espirito do Padre Cicero Romão, baixou em uma sessão e mandou um recado para Manoel Onofre Junior. E como uma carta de espirito não é coisa que acontece todo dia, principalmente de um espírito de um padre tão famoso, como o “Padrim Ciço”, que Lourival Rodrigues psicografou, publicamos a dita carta na integra”.

Em três compactas colunas, depois de algumas considerações preliminares do missivista, o próprio padre procura explicar-se . A certa altura diz:

“O meu prestigio aumentava na relação das aparências, que eram as mais sutis possíveis: quando a cultura nos falta, para edificarmos o que pretendemos, a astúcia preenche plenamente todas as necessidades. Foi o que pensei. Para se conseguir prestígio no meio ambiente em que vivi; precisava usar todos os meios e jamais me faltou amparo dos poderosos, não porque acreditassem nas minhas mistificações, e sim porque precisavam do meu prestigio, quando eu representava a vontade de uma boa parte daquela massa humana, onde a sua maioria era, como ainda é, de analfabetos, ou de instrução primária”

A carta se estende, prolixa, Não vale a pena transcrevê-la, toda. Fica o registro. Sem comentários.

Share:
Manoel Onofre Jr.

Comentários

Leave a reply