Esse lançamento – aqui noticiado – do livro de Cláudia Magalhães, é, em minha humilde compreensão, um dos melhores de 2009. Inaugura uma nova roupagem para a dramaturgia produzida aqui no Rio Grande do Norte.
Tive o prazer de escrever o seguinte texto acerca do livro:
REVELAÇÕES DA “ESQUINA DO MUNDO”
A dramaturga Cláudia Magalhães se revela por inteiro como autora de um texto dramático ágil e forte, ao tempo em que nos traduz os sentidos de um mundo estranho e denso, repleto dos dramas, tragédias, misérias, e – por que não afirmar também? – de todos os risos, todas as alegrias, delícias e gozos humanos.
Cláudia nos conduz ao que chama de “esquina do paraíso com o inferno”, um lugar onde tudo acontece, tudo se passa, tudo é possível, mesmo os mais inverossímeis acontecimentos. Esse lugar já foi – e tem sido – por diversas vezes cantado pelos poetas e descrito por intelectuais e artistas. E é, ele mesmo, um lugar de artistas e intelectuais, e, antes de tudo, de boêmios, raça superior da humanidade delirante.
O conteúdo psicológico e sensível do lugar é profundo porque lá, naquela “esquina do mundo”, “tudo e todo sentimento se mistura”. É o lugar dos marginais, dos bêbados, dos loucos, dos poetas (e estes são todos loucos!), dos artistas, das putas, das santas (qual é mesmo a diferença entre uma puta e uma santa?), dos vagabundos, dos amantes, dos amigos, dos rivais, dos bobos, da corte de bobos, dos que são sem nunca ter sido, dos que trepam sem amor, dos que amam sem trepar, das baratas, dos ratos, das borboletas em casulos ou fora deles, dos que olham a rua, dos que cantam ao rio e ao mar, dos que uivam para a lua, dos que se escondem, dos que se encontram, dos que se desencontram, dos que se revelam.
Cláudia nos revela todos a todos! E naquele lugar todo dia é dia de revelações, verdadeiras radiografias em série do conteúdo e do continente humano (humanóide até, para não esquecer o lendário Marcellus Bob) repleto de matizes e prismas os mais diversos e incompreensíveis, situando-se entre o pathos e o eros.
E Cláudia não busca explicar, não quer fazer compreender. Ela tão-somente nos expõe um grande mural, um panorama das realidades e personagens múltiplas, multifacetadas que são expostas naquela “esquina”, naquele micro, ou macrocosmo (depende do olhar!).
A peça de dramaturgia de Cláudia, essa boa novidade das letras potiguares, é algo para ler e tentar crer, porque leva a interpretações do mundo que não são encontradas na estante, nem na internet, nem nas linhas dos jornais (a não ser nas entrelinhas); o texto enfoca os delírios urbanos mais profundos, como profunda é a pena de quem os descreve e os escreve.
Por isso é de se estar atento! É de se ingressar com prudência nesse mundo imprudente! O teatro de Cláudia Magalhães merece mesmo atenção. Causará o impacto, os sismos e as cismas de que é merecedor, ambos em muitos graus “Richter”. Há de se ter um sismógrafo e bons nervos para penetrar nessa “esquina”. E é bom sempre estar bem preparado, pois ali não é lugar para desavisados! Ali é lugar de profissionais! Tenha coragem, caro leitor! Corra os riscos! Tome uma meladinha e siga até o fim dessa es(his)tória, desfrutando de todas as delícias, bizarras delícias de uma esquina que está bem ali, pertinho, pertinho de todos nós!