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Pai errante

Rester vertical

O diretor Alain Guiraudie foi a sensação do Festival de Cannes, em 2013, devido ao thriller dramático Um estranho no lago.

Três anos depois ele escreveu e dirigiu Na vertical (Rester vertical), um filme sobre como a paternidade é capaz de mudar radicalmente a vida de um homem.

Léo é roteirista e leva uma vida nômade, preferindo as surpresas da estrada e a comodidade dos quartos de hotéis, na busca de temas e inspiração para sua escrita. Assim, parte para o sul da França, e é atraído pelo jovem Yoan e seduzido por Marie, uma pastora de ovelhas.

Ele tenta se aproximar de Yoan e é rejeitado, mas Marie o faz ser presa fácil, tanto que Léo sempre dá um jeito de voltar à fazenda para revê-la.

Ao descobrir que seria pai, Léo resolve ficar mais tempo na fazenda. Quando o bebê nasce, e Marie passa por uma depressão pós-parto, ele vai se apegando bastante à criança.

Marie já tem dois filhos e ao perceber o afastamento emocional de Léo, que só tem olhos para o recém-nascido, ela vai embora.

No começo, ele fica atordoado, mas logo passa a viver em função do filho, deixando de lado o roteiro e enrolando o produtor, embora nunca deixe de pedir um adiantamento pelo trabalho.

A única coisa que o bebê não consegue tirar de Léo é a atração por Yoan. Volta e meia ele vai à casa do velho para quem o rapaz trabalha, na esperança de uma receptividade que nunca alcança. Nisso, passa a conversar bastante com o velho, um homofóbico radical (na verdade, louco para experimentar “novos” prazeres).

O filme desanda quando os homens menos improváveis, ao redor de Léo, passam a desejá-lo (até o pai de Marie!), uma forma de Guiraudie afirmar não haver rótulos para o desejo, rompendo os conceitos de hetero e homossexualidade entre os personagens.

A metáfora de “ovelhas e os lobos” pontua todo o filme, com Léo sendo o inocente “abatido” pela sociedade preconceituosa e moralista, embora seu sacrifício tenha como objetivo manter sua dignidade, não apenas para si, mas principalmente por seu filho.

Como ele diz calmamente a Jean-Louis, o pai de Marie, ao se verem cercados por uma alcateia: “Não se preocupe. É só não demonstrarmos medo. Temos que parecer mais fortes que eles. E não podemos cair. Enquanto estivermos de pé, estamos seguros”.

Na Vertical não tem a mesma pegada de Um estranho no lago, insere alívios cômicos em forma de fantasia fantástica totalmente sem sentido (a médica que mora no meio de uma floresta e vê as dores do corpo e da alma através de uma máquina estranha), as cenas de sexo ficam entre o explícito e o pudico, mas deve ser visto no Festival Varilux pela atuação de Damien Bonnard, o Léo, que concorreu ao César como Melhor Ator Revelação, e ganhou o mesmo prêmio no Lumiere Awards, ambos em 2017.

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Milena Azevedo

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