Palavras que sabem a silêncio

14 de agosto de 2010 às 18:34 - 1 Comentário
Por Carmen Vasconcelos

Quando é preciso calar? Quando, apesar das falas, não há comunicação. Emissão e recepção se interrogam uma à outra: quem sois? Quando não se consegue dizer, pois, para dizer, é preciso compreensão. Escutar é pouco, muito pouco para o ato de dizer.

Há horas em que é preciso não falar, se entupir toda de silêncios, guardar as palavras, contraí-las, nem que seja preciso asfixiar-se com elas. As palavras se cansaram de tanto significar, elas não querem o significado que a elas quero dar. Elas me repelem, o que digo cai na mornidão, acho ruim dizer. Não digo. Vou contendo palavras repelentes, sou eu a repelida. É como estar sempre à margem da vida de alguém. À margem, nunca no dentro, jamais no pleno. À margem, tangenciando sempre. Estas palavras que contenho me dão a impressão de um degredo interior, de um degredo em mim mesma.

Um degredo em mim mesma, expulsar todas as vontades, com exceção de uma: estar ao lado. Só esta vai ficando, expandida. Só esta é permitida e se permite. As outras – são tantas vontades – tenho de expulsá-las. Mas se eu tivesse de novo a sede, a sede imensa que julguei saciada, seria menos doído expulsar as vontades. Seria aceitar – esse é o desafio – aceitar está ainda longe. Sem a sede, como posso? Como posso tangenciar sem a sede e sem miragens? Nasci com sede, parece que nem estive em águas. Quando me pensei saciada, me enchi de vontades.

Porque escrevo, advinham-me? Tenho certezas de não. Confio nos meus labirintos. Se certas pessoas me adentrassem elas se perderiam. Além disso, quem me acha é porque estava escrito assim. De me acharem. É porque foi certo me acharem. Escrevo e sirvo à perda ou ao encontro. Escrevo às vezes sem rédeas, como agora. E quando é assim, chego muito perto de mim. Há partes de mim que me enjoam.

Nem toda mudança é boa, embora eu seja entusiasta de mudanças, eu sei, algumas são horríveis. Mas o coração permanece (Drummond), é bom ter algo assim, permanente, pelo menos enquanto… O coração sincero é sempre o mesmo (Bachelard).

E o mesmo coração, o nosso próprio, nos ultrapassa sempre (Rilke). É bom ter palavras assim, para o futuro, para o passado. Quando se está dentro da vida de alguém, tem-se projeção. Não é para fora, é projeção para dentro. Passado, futuro, presente. No dentro. Mas quando se está à margem de alguém, à margem de sua vida, só se tem presente, só se tem o momento. Estar à margem da vida de alguém, e não no dentro, é não ter passado, nem ter futuro. É ter o instante, e só aquele. É ter tangência, inclusive no tempo. Seguir paralela, nunca encontrar-se no pleno, nem no infinito. Quem está à margem, está sempre correndo o risco de ficar no caminho.

Mas a sede, a sede primordial, esta é capaz de salvar. Para correr os riscos, é preciso ter sede. É preciso buscá-la de novo, a sede. Há algum lugar para onde correr? É preciso correr para a sede. Pode até ser de poesia, de vinho, de espelhos… De virtude eu já não sei, desconfio de tudo quanto é moralismo, com seus muitos pesos e medidas. Virtude pode ser torcida e destorcida, a palavra. A virtude exauriu-se em significados. Mas a sede, a sede significa. Ainda.

1 Comentário

  1. 20 de agosto de 2010

    Olá, Carmen,
    recebi o convite para os lançamentos. Obrigada. Nesse período estarei em um congresso em S. Luiz, mas irei adquirir seu livro, depois. Tenho certeza de que será uma ótima leitura.
    Parabéns e sucesso, sempre.

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente