Substantivo Plural acompanhou palestra de Zygmunt Bauman em Florença (ITA)

Veronica Botelho
Destaque

Sociólogo Zygmunt Bauman mencionou 1984, de George Orwell, para questionar medo de ser ignorado no modelo de sociedade em que vivemos

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Bauman participou do Festival delle Generazioni, evento que reuniu mais de 30 mil pessoas no centro de Florença; Ele ministrou a palestra Sociedade e medos: (Pre)visões para o Futuro, no belíssimo Teatro Verdi, em que até uma fala do Papa Francisco foi usada de matéria-prima em suas proposições

Uma das vantagens de morar aqui na Europa é poder acompanhar diversos festivais.

Tem de tudo: Música, teatro, revistas em quadrinhos, artistas de rua, tatuagem. Quase todos gratuitos.

Entre os dias 13 e 15 de outubro, Florença teve uma edição do Festival delle Generazioni

(http://www.festivaldellegenerazioni.it), realizado também em Roma e Bolonha.

Ele nasceu com a intenção de intercomunicar gerações, aumentar a interação entre a sociedade.

Foram mais de 150 convidados, para um público estimado 30.000 pessoas, espalhadas por eventos no centro da capital toscana.

Havia instalações artísticas, filmes distribuídos em cinemas de ‘antigamente’, workshops, seminários para todas as gerações.

O Festival contava com a colaboração de voluntários – desde crianças até aposentados.

Um verdadeiro exemplo de como podemos nos comunicar, cooperar e, sobretudo, promover o autoconhecimento.

O tema central deste ano foi Além das Fronteiras: Gerações e Culturas.

Dos personagens ilustres, o protagonista foi o polonês naturalizado britânico Zygmunt Bauman.

O sociólogo é conhecido por ter criado o conceito de Modernidade Líquida, ao falar da época atual.

Ele ministrou a palestra Sociedade e Medos: (Pre)visões para o Futuro, no belíssimo Teatro Verdi, construído em 1854, no centro de Florença.

Bauman fala do medo como um sentimento inato, com a consciência da mortalidade a distinguir animais e seres humanos.

Seu discurso em Florença foi ao encontro da fala do Papa Francisco no último dia 30 de julho:

O cardeal argentino disse assim:

“Há situações que nos podem parecer distantes, até ao momento em que, de alguma forma, as tocamos. Há realidades que não entendemos porque vêmo-las apenas através de um monitor (do celular ou do computador). Mas, quando tomamos contato com a vida, com as vidas concretas e já não pela mediação dos monitores, então algo mexe conosco: todos nos sentimos convidados a envolver-nos: «Basta de cidades esquecidas», como diz Rand; nunca mais deve acontecer que irmãos estejam «circundados pela morte e por assassinatos» sentindo que ninguém os ajudará”.  

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Expor o lado perverso do capitalismo é uma das facetas de Zygmunt Bauman, para quem as relações humanas estão cada vez mais pueris, apesar da hiper conectividade

Somos todos espionados

Zygmunt Bauman nasceu em 1925, e foi marcado (e toda uma geração) pelo livro 1984, de George Orwell.

Ele comentou o estupor e o medo causado pelo livro.

Explicou o fato da sociedade ser constantemente observada.

“The Big Brother always watches you”, era um dos maiores medos daquela época da publicação (1949).

Afirmou que o contrário acontece na sociedade atual:

“Toda vez que você usa o telefone, a ação é gravada para sempre, há alguém em algum lugar que sabe exatamente onde lhe encontrar, quem você é, onde você está. E a mesma coisa acontece quando você usa cartões de crédito. Existe alguém que segue suas rotinas diárias e isso torna-se de grande interesse em nível político e econômico. Zuckerberg ganha dinheiro dessas situações. Mas ao contrário do protagonista orwelliano, hoje não temos medo de ser visto, temos medo de não ser notado, temos medo da solidão, o vírus que enfraquece e compromete o sentido da vida é a exclusão e o abandono. E disso se beneficiam as redes sociais. Se confunde a vida no Facebook com a vida real, é suficiente fazer uma viagem a Florença para ver como é artificial o mundo criado pelas redes sociais “.

Bauman também comentou:

(…) “Eu me lembro da minha juventude e de um programa que falou de como o mundo estava indo na direção errada. Percebi que a geração de 1984, aquela real, não se reconheceu nos medos descritos por Orwell, porque estava com medo de alguma outra coisa”.

Sobre a ideia dos dois mundos nos quais vivemos, mais uma característica da sociedade líquida:

“Todos nós vivemos simultaneamente em dois mundos: online e offline. O conforto que nos foi dado pelo universo on-line é inconcebível no mundo offline…O mundo off-line é povoado por estranhos que você encontra na vida cotidiana, no mundo online não temos que nos esforçar para desenvolver nossas habilidades de comunicação. O problema é que se confunde a vida no facebook com a vida verdadeira, e acreditar que o mundo on-line serve para resolver o medo de ser excluído ou abandonado”.

O tema da (i)migração, assunto muito delicado aqui na Europa, não poderia faltar no seu discurso.

“A migração é uma constante na história da humanidade e cada época teve uma; a única diferença eram os meios de transporte e os destinos geográficos. Os italianos por exemplo, imigraram para o Brasil, Estados Unidos, Argentina. Em 2015 aconteceu algo diferente? O que tem de diferente a chegada de um milhão de refugiados da Síria, com a chegada de pessoas que procuravam trabalho na era moderna. O que tem de diferente as pessoas que procuram asilo?”

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Mais de 150 convidados atraíram uma multidão à Florença entre os dias 13 e 15 deste outubro

De acordo com o sociólogo, não há diferença, uma vez que os requerentes de asilo, antes de emigrar, se sentiam completamente seguros, e agora estão sem casa, trabalho, perspectivas.

A segurança é uma ilusão, porque talvez amanhã podemos estar na mesma situação.

Ele também comentou a falta de confiança que temos nos governos, na sociedade, nas pessoas.

Segundo Zygmunt Bauman, perdemos as esperanças.

O teórico da liquididade moderna finalizou o seu discurso mencionando mais uma vez o Papa Francisco.

E fechou com chave de ouro com uma frase de Confúcio:

“Se você tem metas para um ano, plante arroz…Se você tem metas para 10 anos, plante uma árvore… Se você tem metas para 100 anos, então eduque uma criança”.

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Veronica Botelho

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