Outro dia Carlos Peixoto estava aqui na redação tentando lembrar uma frase de Hamlet que diz mais ou menos “o mundo está fora dos eixos”. É essa a sensação que muitos de nós estamos sentindo neste terceiro milênio, “alguma coisa está fora da ordem”, como diz a canção de Caetano. Nessas horas, meus amigos, só tem duas saídas. Procurar algum consolo na religião ou buscar um rumo na filosofia.
É nessas horas também que faz um bem danado ler filósofos como o alemão Immanuel Kant. Mas ao tentar fazer isso qualquer leitor vai perceber logo de entrada uma grande dificuldade. Ler Kant não é fácil. Daí a importância deste Kant – Uma Leitura das Três “Críticas”, de Luc Ferry, Difel, 336 páginas, R$45,00. Logo no início o autor diz que “podemos tentar contornar a dificuldade o quanto quisermos, freqüentar os cafés filosóficos e os locais de iniciação de todos os tipos. No fim, não há o que fazer: é impossível entrar realmente na filosofia sem nos dedicarmos a compreender a fundo pelo menos um grande filósofo”. E acrescenta que ler Kant é importante “em razão de sua posição intermediária entre o mundo dos antigos e o dos modernos”.
Porque ler Kant “é dar-se a oportunidade de uma perspectiva incomparável sobre a história da filosofia ocidental”. E também porque “é impossível ler adequadamente Nietzsche, Husserl, Heidegger ou Arendt sem ter uma boa compreensão da Crítica da Razão Pura”. Dito isso com a voz do próprio autor resta-nos ainda a pergunta. Por que é tão difícil ler Kant? Porque é preciso ter “chaves de leitura” para sua compreensão. E é o que nos oferece a leitura deste livro de Luc Ferry. “Sem essas e algumas outras chaves da mesma ordem, hoje é quase impossível ler diretamente Kant. Não que suas teses sejam, por si sós, tão difíceis ou obscuras como às vezes se supõe. Mas o fato é que não pertencem – ou não mais – à cultura geral das pessoas cultivadas. As questões as quais elas trazem respostas desapareceram no campo de nossas preocupações ordinárias, de maneira que praticamente já não são admitidas, em todo caso não mais sob sua forma original, no espaço público”.
A seguir ele lista algumas das dificuldades na leitura de Kant e completa: “Todas essas dificuldades podem ser superadas depois de compreendermos a lógica de conjunto de seu pensamento – elas não deixam de ser obstáculos assustadores para o leitor iniciante e até, sejamos francos, para muitos professores de filosofia”. E agora? Ficou com medo, cabra? Nada. Este livro foi feito justamente para que o leitor interessado em filosofia possa começar entender o pensamento de Kant de forma mais suave, sem a corrida de obstáculos dos jargões acadêmicos. Escrever difícil esconde muitas vezes grandes imposturas intelectuais e Luc Ferry prova isso com uma escrita de fácil acesso.
Luc Ferry é autor de outros livros de introdução à filosofia de grande sucesso como O Que é Uma Vida Bem Sucedida? E Tratado de Filosofia Para as Gerações Jovens. Aqui ele acerta em cheio ao proporcionar para o público leigo a possibilidade de compreensão deste grande filósofo.
A primeira vez que tentei ler Kant foi num volume da coleção Os Pensadores. Fiquei vários dias sem conseguir passar de algumas páginas, tendo que voltar várias vezes para entender o que lera páginas atrás. Uma pedreira mesmo. Então comprei um livrinho bastante simpático intitulado Kant & A Crítica da Razão Pura, de Vinicius Figueiredo, Coleção Passo a Passo, Jorge Zahar, 76 páginas, R$19,90. Desses livros que você pega naquelas prateleiras que giram nas livrarias e leva sem pensar. Confesso que desisti várias vezes de sua leitura pela dificuldade que encontrei logo de entrada.
Para voltar à questão que coloquei no início, sobre o mundo de pernas para o ar, volto a citar Luc Ferry com muito prazer. “Se o mundo, a partir de então, é um caos, um tecido conflituoso de forças, é claro que o conhecimento já não pode assumir a forma, no sentido próprio, de uma theoria. Com efeito, nada mais há de divino na natureza que o espírito humano possa incumbir-se de contemplar. Doravante, é este último que, por assim dizer, do exterior, deverá introduzir a ordem num mundo que quase já não a oferece à primeira vista. Eis a razão para a nosa missão, na verdade inaudita, da ciência moderna, que já não reside na contemplação, e sim num trabalho, na elaboração ativa e até mesmo na construção de leis que permitem conferir sentido ao universo desencantado”.
Einstein disse que “Deus não joga dados com o Universo”. Joga sim. O poeta Mallarmé sabia disso.