Este não é fácil de encontrar nas livrarias. Consegui um exemplar no site Estante Virtual, mas se você tem interesse em conhecer de perto o pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne antes de mergulhar de vez nos Ensaios, vale a pena o esforço. “Montaigne em Movimento”, de Jean Starobinski, Companhia das Letras, 325 páginas, R$70,00 é um daqueles estudos em profundidade que deixa o leitor completamente à vontade para degustar a obra do escritor que a pessoa admira. Se bem que ler Montaigne não é coisa muito difícil como tentar ler outros filósofos, como Immanuel Kant, por exemplo.
Montaigne escreve como se estivesse conversando com o leitor e é aí que mora todo o segredo e encanto de sua escrita. Ele, na verdade, escrevia para si mesmo, revela Starobinski, mas sempre flertando com um possível inalcançável leitor. Essa decisão do filósofo foi exatamente a que garantiu sua imortalidade. Primeiro ele queria prestar homenagem a um grande amigo falecido. Então essa conversa com alguém ausente passa imediatamente a nos transformar em amigo íntimo do filósofo.
Uso este termo para definir Montaigne apenas pela falta de outro melhor, pois o que menos se parece neste grande apanhado do conhecimento humano é filosofia. A impressão que passa é que ele queria falar de tudo que lhe passasse pela mente sem qualquer obstáculo que freiasse sua imaginação. Qualquer assunto é motivo para que ele mergulhe na mais deliciosa digressão. E o que faz Starobinski é guiar o leitor neste mar de palavras, muitas vezes malandramente surrupiadas de outros, pois nos tempos de Montaigne esse negócio de direito autoral ainda não existia. Grande ladrão de palavras este cidadão.
Da mesma forma como fazia Shakespeare, o filósofo também toma frases inteiras de outros autores e as transforma em coisa sua, completamente originais. O frescor do pensmento de Montaigne é o que faz dele um verdadeiro Cult entre as pessoas que se ocupam dessas coisas etéreas. Daí o grande interesse pelo que ele que ele fala sobre o amor. Eis aí um departamento dos mais interessantes nesta análise de Starobinski da obra do mestre francês. O capítulo Dizer o Amor tem a vocação de por si mesmo ser um verdadeiro Best seller.
Confesso que ler Montaigne não é mais a mesma coisa depois disso. Sempre o li em doses homeopáticas (tenho os dois volumes da coleção Os Pensadores, da Abril), escolhendo aqui e ali um capítulo particularmente interessante. Agora caio sempre na tentação de ler fazendo o cotejamento entre o estudo de Starobinski e o texto original. Não existe divertimento melhor para as horas solitárias.
Essa minha paixão por Montaigne começou a partir da convivência com uma pessoa muito especial que passou pela minha vida. Ela gostava muito de lê-lo e isso despertou minha curiosidade. Agradeço muito tal influência, porque tenho adquirido muito conhecimento e alegria com cada coisa relativa ao pensador francês. Outro dia estava procurando alguma coisa para ler e encontrei uma promoção do livro “Montaigne”, de Marcelo Coelho, da Publifolha (êpa! Não estou ganhando nada da Publifolha, viu?). É um livrinho de 89 páginas da coleção Folha Explica que dá dicas preciosas sobre a obra e a vida de Montaigne.
Foi aí que vi a indicação do livro de Starobinski e também de outro livro que ainda não li, mas que já está comigo que é “Montaigne a Cavalo”, de Jean Lacouture, um misto de biografia e ensaio que comentarei depois aqui. Pois bem. Hoje estou recomendando “Montaigne em Movimento” porque sei que alguns de meus raros e importantíssimos leitores desta minha coluna vão logo sair no encalço deste livro tão necessário.
Agora, antes que eu me esqueça, um aviso. Não é uma leitura das mais fáceis. Pois é, Montaigne é fácil de ler, mas Starobinski não. Como todo schollar, o suíço tem aquele costume acadêmico de dificultar as coisas para o leitor leigo. Você precisa começar a leitura, munido da mais espetacular paciência e boa vontade para ir remando nessas águas revoltas do pensamento montaigneano. Não precisa crucificar Starobinski por isso, pois sua intenção foi das melhores. Todos os capítulos dos Ensaios do filósofo os capítulos são precedidos de análise aprofundada da biografia e contexto em que aquilo foi escrito, vale dizer.
Você sabe que um esforço como esse, de facilitar a compreensão da obra de qualquer autor, é sempre muito bem vindo. Então antes que se esgote este tempo e espaço em que dialogamos aqui, eu e o leitor, vamos descrever alguns tópicos abordados no livro. Primeiro vem a questão de “para quem escrevemos”; depois “a verdadeira face das coisas”; em seguida “a relação com os outros”; passando pelo “momento do corpo”; ainda “dizer o amor”; culminando com “a natureza e a obra” e concluindo com “os costumes públicos”.
É importante salientar que tais tópicos cobrem assuntos os mais variados como a arte do pintor, a iminência da morte, a felicidade de sentir, os empréstimos de palavras, a revolta do estômago, o impudor, os erros médicos, os livros proibidos, os livros desejados, os serviços recíprocos no amor, a obra-prima de viver, a simpatia à crítica, a ação calma, etc. Esta é a grande aventura de ler Montaigne e entender o que ele quis dizer com tantas palavras e tantos mundos imaginados.