Pelo direito de jogar a cabeça contra o vidro

10 de março de 2010 às 19:03 - Comentar

Por Walter Hupsel
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Recentemente, e por conta de uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, voltou à pauta a questão das drogas, especialmente a legalização da maconha. O ex-presidente defendeu a legalização da maconha com um argumento muito simples e verdadeiro: a guerra às drogas não trouxe o efeito esperado, não diminuiu o consumo e jogou milhões, quiçá bilhões, de dólares fora. Para FHC, se trata de legalizar o consumo e focar os recursos na repressão ao narcotráfico enquanto olha para o usuário como um problema de saúde pública.

Como um pouco de história não faz mal a ninguém, é fato inegável que a humanidade sempre consumiu substâncias psicoativas desde os tempos mais remotos, seja para finalidade lúdica ou ritualística. De uma maneira ou de outra, as drogas sempre fizeram parte do nosso cotidiano, da nossa vida.

Até bem pouco tempo atrás (falo na escala da espécie humana), até o começo do século 20, existiam casas de consumo de drogas, especialmente de ópio, pela Europa. Frequentá-las era como ir a um bar tomar um chopp no fim do expediente. Mas as drogas, pouco a pouco, foram postas na ilegalidade e seus consumidores, enquadrados no código penal, um legado dos “moral majority” estadunidenses.

Maconha era droga de “mexicano vagabundo”; a “malvada” cocaína destruía o superego e transformava o médico num monstro; o álcool atacava as fundações da célula-mater da sociedade, a família. Nunca é demais lembrar que o ápice dessa cruzada foi com a “lei seca” nos Estados Unidos. De repente, tomar um dose de whiskey era crime!

Claro que o consumo dessas substâncias continuou, e continua, a despeito da cruzada. O que mudou foi a forma: se antes um inglês ia a um local público fumar ópio, a substância tem agora de ser obtida no mercado negro, nas sombras, e apenas na escuridão é possível consumir. Esta mudança, claro, trouxe consigo novas figuras, aqueles que conseguiam abastecer o consumidor, ávido por gatilhos que disparassem suas sinapses.

Estava criada a figura do traficante e do tráfico internacional de drogas. De um lado o consumidor; de outro, o traficante. Entre eles, o Estado e sua polícia. A equação estava fadada ao fracasso, mas isso é tema para uma próxima coluna.

Por que descriminalizar? E por que a maconha?

O senso comum, a obviedade: porque a maconha não faz mais mal que o cigarro ou o álcool e, como estas últimas são drogas lícitas, não há motivos pra não descriminalizá-la. O problema é que o mesmo argumento pode ser usado para proibir, banir, a cerveja e o tabaco (este caminha rapidamente para a prescrição). Se o cigarro faz tão mal ou mais que a maconha, por que não proibi-lo também?

Descriminalizar significa deixar de ser crime; incluir no ordenamento jurídico alguma ação, para então permiti-la. No momento que agimos assim, tacitamente aceitamos o fato de que qualquer assunto pode ser passível de regulamentação, de legislação, para a aceitação ou para a proibição.

Ora, o que perdemos no século 20 foi justamente a linha que separava aquilo que era passível ser legislado (permitido/proibido) do que simplesmente não cabia nesta lógica. Não achamos justo que nos digam como (ou com quem) devemos dormir, assim como não posso achar justo que me digam se posso ou não jogar minha cabeça contra um vidro.

Liberar, ao contrário, é assumir que existem espaços, esferas, que nenhum juiz ou deputado pode julgar por meio da lei, que só e somente só ao autor cabe a decisão de fazer ou não.

Em síntese: é defender o direito inalienável de que em determinadas matérias o poder supremo é do indivíduo e sobre elas não podem haver normas, regras, poderes que nos permitam ou nos obriguem. Esta atitude se refere às drogas, todas elas, à eutanásia, ao aborto, a dirigir sem cinto de segurança, sem capacete…

Não à descriminalização da maconha! Não à descriminalização das drogas! Que elas, todas elas, simplesmente não sejam passíveis de entrar no circuito de leis. Que pura e simplesmete as leis sequer possam tocar no assunto! Liberar sim, legalizar não.

Parafraseando Thiago de Mello:

“Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
A partir deste instantea
liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio”

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”