Pelo reino de uma fortaleza contracultural

Carlos Gurgel
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naquela época, parece que o vento soprava como um pássaro no ar, abanando as ideias dos artistas da cidade, na direção de se revirar o imobilismo que por aqui reinava.

belle époque da Galeria do Povo, capitaneada por Eduardo Alexandre, por onde um séquito de público e artistas tangia os domingos na praia dos Artistas. como nômades aventureiros, castiçais da ponta do Morcego, plenos pulmões, indecifráveis passos largos.

Lola, Luiz Lima, me liga, nessa época, 1978, eu estava morando em Salvador, e ele me revela a ideia de se fazer um festival, guarda-chuva aventureiro, pleno de respiração, sopro, destemida aquarela por onde os transgressores de uma arte alternativa grunhiriam seus varais, como opúsculos sonoros, e de uma variedade enorme de ensandecidas tribos sem oca, como cintilante chama surgida de uma conversa com Sandoval Fagundes, artista plástico de João Pessoa, e que estava morando na Pinto Martins, justo com Lola.

essa nave corpo de Mirabô, Venâncio Pinheiro, Novenil Barros, e tantos e outros, mais se espalha, alimentando como alvíssaras uma boa nova, sortilégio da era de Aquarius, onde tudo se fermentava como uma bolha, como uma nova bíblia para os nossos olhos provincianos recheados da cor e da delícia da dor litorânea de saber quem se é. sim, estava começando o périplo de uma arte costurada por calejadas trombetas noturnas. tal qual uma poesia quando sai de um baú infestado do obscuro silêncio, ócio, fóssil nosso, dos anos 70 e em diante. explodia, expandia-se, ali, a inteira disposição de todos para que a horda principal desse portal pudesse ser lubrificada com caras, bocas, tintas, berros, gritos, urros, tudo tão novo, tão espacialmente essencial e antropofágico. sim. fomos compressas e curativos. símbolos, metalinguagens, metáforas e abissais esteiras. Aguillar/Chacal/Jommard Muniz/Macalé/Chico César e + e + e+.

a cidade dos Reis, fremia, como certamente o certame dos seus vigias e seus soldados, nessa fortaleza, catedral de tantas lonjuras históricas e atabaques nórdicos. era necessário, sobremaneira, o aparecimento de um suor estendido, cravejado de resistência e verbo. como uma vontade de escalar o frontispício de um alaúde vertiginoso e por demais noturno. entre seus coqueiros e praças, a arte como flechas, arcos, loas, embarcações mis, trombeta planetária, vozes uníssonas sobre um terreno fértil e abissal, reconhecia sua taba. sua mais que genuína face, como uma carvão que queima e sorri. como uma alavanca que expande seu reino, e fabrica sua própria pontaria e vítima. sua própria algazarra e missa. seu próprio rochedo e balística. sua própria aparição e sumiço. sua baladeira forte, impávida. escaramuça de pele tupi, efêmera, arbusto de um ar árvore plena de soltos seixos, se espalhando como uma mistura do terreiro, de uma escala sorrateira e tropical, ou de um plástico que incendeia essa aldeia por onde o tesouro de um silêncio guardado foge e desaparece. já como um alpendre para que os daqui e os de fora, celebrassem seu inteiriço e atávico vínculo com todos que adubavam as mentes das suas ilhas, queridos ritos de uma paisagem sem fim.

em ritmo de uma desenfreada cadencia, um a um, foram postos à prova, nascia dai a invenção de uma arte sem intervalos, noites e dias interligados, bólide de um tilintar de mais quero, porta gigante de tantos titãs e guerreiras. de tantas academias reinauguradas. de tantos pronomes cênicos. de tantas xícaras esbaforidas, floridas por um vendaval que jogava para bem longe a pasmaceira que até pouco tempo, habitava a todos. mudar, principalmente, é aceitar o pulo no obscuro e o seu silêncio, profundo dos nossos sentimentos e paixões. por isso que a arte catapulta, impõe a cada um, uma vírgula desconhecida, uma parada obrigatória pela janela por onde todos os ridículos obstáculos, um a um, soprando suas maiúsculas trombetas de tanto surtir, tremulam.

despedida sempre acontece. irremediavelmente ao redor de flores, seculares cafés e o perfume do amanhã. hoje, vejo pela calçada, o passo do tempo que se elastece, esticando a memória fragmentada, inclemente arma criadora. nada mais ruidoso do que o horizonte que tange com seus olhos, a bendita fornalha. viva, ampulheta esperta. talo de um gesto profundo e arrebatador. arte como arma poderosa e sutil. aqui, ali em pleno abril. alambique. combustível. arcabouço da imagem tão distante e íntima: para que a sobrevivência assista como uma radiola heroica e andante, a vinda de tudo que passa e fica. de tudo que estremece ao se olhar o sol, crepúsculo de um vento por onde as flâmulas de quem soube do espetáculo da maçã (que fugiu do paraíso e se encastelou), procurou decantar seu viver. semelhante a um segundo por onde toda a enorme tribo festejou.

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Carlos Gurgel

Comentários

5 comments

  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 14 setembro, 2017 at 15:48

    Pelo que entendi Gurgel, Esso gostaria de saber quem são as pessoas nas fotos. Eu não identifiquei porque não reconheci todas. Se você enviar os nomes eu coloco legendas.

  2. Carlos Gurgel
    Carlos Gurgel 17 setembro, 2017 at 05:00

    ok Esso e Tácito, desculpa pela demora.

    à seguir:

    foto 1:

    o ” Gato Lúdico”: Vicente Vitoriano, Carlão e Jaime. depois, Novenil Barros, Mônica Galvão, e mais três pessoas que não reconheço.

    foto 2:

    Franklin Jorge e Rizolete.

    foto 3:

    Analba Frazão.

    foto 4:

    Fernandão do “Alcatéia Maldita”

    abraços!!!!

    Cgurgel

  3. vicente vitoriano 18 setembro, 2017 at 11:09

    na foto 1, os quatro do meio, pela ordem: jaime figueiredo, carlos lima, hermes araújo lima, gerson xavier (na época, já apelidado de baby beatnik); na frente, vicente vitoriano. novenil barros não está nesta foto.

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