Pense na paisagem: considerações sobre o Festival da Pipa

Conrado Carlos
DestaqueGastronomia

Como um dia insólito no Festival da Pipa pode resgatar parte da história norte-rio-grandense e ainda distrair uma mente esfumaçada pelo noticiário polí­tico-criminal; evento aconteceu em setembro passado.

Festival da Pipa (2).chico da ostra

Chico da Ostra é natural do distrito de Caraúba, em Apodi, 350km distante de Natal; ele veio para Litoral Sul potiguar nos anos 1970, trabalhar na Usina Estivas.

A chapada estendida até o horizonte revirava a cabeça de Francisco. “Ficar ou ganhar o mundo?”. O jovem sertanejo tinha então 18 anos de idade e a paisagem e seus efeitos o dominavam. Corria a metade da década de 1970.

No município de Apodi, as perspectivas de sustento eram as mesmas desde que os primeiros jesuítas chegaram à  região, três séculos antes.

Dos mais antigos núcleos populacionais da capitania do Rio Grande, a cidade, terra de í­ndios paiacus, aonde até o holandês setecentista chegou, fica cerca de 350 km de Natal – uma lonjura, dentro da geografia potiguar.

Como uma criança em vias de caminhar sozinha, Francisco deu um passo curto de Apodi até Mossoró – caso desse errado, a mão dos pais estava por perto. Ele passou um ano na capital do Oeste. Por lá, fez amizades e recebeu um convite: cruzar o Estado rumo ao litoral, em um movimento corriqueiro para quem sobrevive no Alto Sertão.

E assim foi.

Francisco de Avelino Silva chegou a Tibau do Sul, à época, cidade novinha em folha, após emancipar-se de Goianinha, em 1963, para trabalhar na usina Estivas, localizada na vizinha Arez.

Mas a vida na ‘civilização do açúcar’ foi, em pouco tempo, trocada pelos frutos do mar.

De início, virou mascate de camarão, em contato inclusive com restaurantes da capital. Para, finalmente, descobrir um molusco incrustrado em conchas de calcário.

Quatro décadas depois, rebatizado como Chico da Ostra, nos encontramos em Pipa no final de setembro passado, durante o festival que transforma a praia em um mosaico gastronômico e cultural do que acontece na região – e em diversos países.

A ostra de Guaraí­ras

Eu tomava uma cerveja na praia com o amigo Sérgio Vilar, na hora em que Chico parou para explicar o processo de criação das ostras em Tibau do Sul. Ele é um dos 18 integrantes da Associação dos Produtores de Ostras do Rio Grande do Norte (APROOSTRAS/RN), cujo lema é Unir, Preservar e Crescer.

Festival da Pipa (1).Aproostras

Ostras dos criadores de Tibau do Sul são puras por ficarem em uma espécie de cama elevada 1,20m do chão, o que permite chegar apenas água limpa das marés.

Suas ostras são puras, com a parte interna da casca branquinha feito algodão, por ficarem em uma espécie de cama elevada 1,20m do chão, o que permite chegar apenas água limpa das marés.

Chico tem 62 anos, mais de trinta em contato com ostras, sobretudo na Lagoa de Guaraíras, um dos locais mais bonitos e mí­ticos da história potiguar, localizada entre os municí­pios de Arez, Goianinha, Tibau do Sul, Ní­sia Floresta e Senador Georgino Avelino.

Ela está na área de Preservação Ambiental Bomfim-Guaraí­ras, porção do Estado com 42 mil hectares, que abastece 23 municí­pios da região Agreste e Trairi, além de abrigar a Ilha do Flamengo, palco de batalhas entre holandeses e portugueses no século XVII, onde estivemos cerca de um ano e meio atrás.

Na década de 1920, o mar estourou uma passagem direta para a lagoa, o que mudou o ecossistema local. Com isso, a área virou um manguezal e um baquete para peixes e crustáceos, como as ostras, boas amantes de ambiente quente, limpo e salino.

É dali que Chico tira seu sustento.

Festival da Pipa (7).andré

Casado com uma seridoense e flamenguista, o carioca André Rockert mora em Natal desde o começo dos anos 2000; ele é um dos organizadores do Festival da Pipa.

Um destino turí­stico se cria no imaginário

Para encaixar uma região no imaginário de quem está distante, a aposta deve ir além da mera beleza natural disponí­vel – natureza por natureza, o Caribe e a África são fortes concorrentes, não?

Tomar uma cerveja na Bavaria, dançar nas ruas da Louisiana, ou mesmo no carnaval carioca, porém, traz elementos novos para turistas e nativos, pois comida, música e poesia têm mais em comum do que sugere nossa vã ignorância.

O carioca descendente de alemão, André Rockert, sabe disso. No começo dos anos 2000, ele foi enviado ao Rio Grande do Norte pelo escritório para o qual trabalhava no Rio de Janeiro com a missão de atuar junto ao programa Empreendedor Cultural, com o Sebrae – origem da Agência Cultural Sesi, lotada no Solar Bela Vista.

Casado com uma seridoense e rubro-negro de quatro costados, André observou a evolução da cena gastronômica do Estado, sobretudo a do Litoral Sul potiguar.

“Essa mistura de pessoas que vieram de vários lugares fez com que fosse criada uma gastronomia nova, sabores novos na Pipa e também Tibau do Sul. Porque eles mixaram suas origens com a gastronomia potiguar e nordestina. Criaram-se novas receitas, novos pratos, por isso que o lema deste ano do festival é Descoberta de Sabores”.

Nos encontramos no começo da tarde de um domingo, nas instalações vazias do Festival. André destacou a dificuldade em sustentar um evento grandioso.

“Sempre existe uma grande dificuldade na captação de recursos. Nós enquadramos o festival na Lei Câmara Cascudo, a gente já vem fazendo isso há três anos e, infelizmente, nunca conseguimos viabilizar recursos via lei. Por outro lado, temos alguns parceiros que são constantes, que já perceberam a importância do festival para a região”.

Interlúdio para falar sobre a turma do Camaro amarelo em Ty-pao

Em janeiro de 1952, Hélio Galvão entrava em Tibau do Sul com as mãos no volante de um Jeepster. Era o primeiro carro da cidade. Ele conta essa história em suas Derradeiras cartas da praia & outras notas sobre Tibau do Sul.

De um tempo em que Pipa era a praia mais isolada do município, para os dias atuais, a mudança foi brutal – foi Hélio quem solicitou ao então prefeito de Goianinha, Milton Duarte, a construção da estrada Pipa-Tibau (ty-pao, que em tupi significa ‘Entre Águas’).

Hoje o caminho rumo ao Paraí­so atrai gente de todo o mundo, inclusive sujeitos que insistem em trafegar pela rua principal em seus carrões possantes.

Mesmo com agentes de trânsito em pontos estratégicos, o fluxo de veí­culos me criou dificuldades (Eu estava com duas crianças). Carros e motos em velocidade desproporcional ao entorno tiraram um fino dos passantes.

Festival da Pipa_cuscurry dos Chefs Carla Correia e angelo Medeiros Foto Kamilo Marinho

Comi essa maravilha aí por 20 reais: ‘cuscuzrry’, da dupla Angelo Medeiros e Carla Correia, um cuscuz temperado com carne e ceviche de banana.

Cuscuz e ceviche na Vila dos Chefs

Sábado à  noite, evento cheio nos quatro setores armados pela organização: um pequeno auditório (1) lotado de curiosos pela palestra de Diego Salem, sobre cervejas especiais; um palco para atrações musicais (2); um miniparque de diversões, com pula-pula, escorrego, piscina de bola e outros brinquedos; e os estandes (4) com comidas e bebidas.

Este último setor, dividido em duas áreas: uma espécie de balcão de negócios, comandado pelo Sebrae-RN, com participação até dos produtores de queijo do Seridó; e a Vila dos Chefs, onde os profissionais mais renomados vendiam pratos a preços convidativos – caso do ‘cuscuzrry’, da dupla Angelo Medeiros e Carla Correia, um cuscuz temperado com carne e ceviche de banana.

O conjunto formava a Cidade Gastronômica, espaço que recebeu cerca de cinco mil pessoas no primeiro final de semana (entre sexta e domingo). Em 13 anos de Festival, foi a melhor formatação, segundo os organizadores. Concursos e mais uma série de palestras deram sequência a um dos eventos mais relevantes dentro da cultura potiguar.

“A gente procura agregar ao eterno lema Sol e Praia que Pipa é também um destino gastronômico, tendo em vista que pessoas do Brasil e do mundo inteiro vieram para cá investir seus recursos, abriram restaurantes. Existe uma diversidade muito grande”, foi o que me disse André.

Aqui no Rio Grande do Norte, parasitamos a natureza – ou, como querem os cristãos, o que Deus nos deu. Iniciativas como o Festival da Pipa existem para mudar a sina.

Com grande presença de público, participação de bares e restaurantes sofisticados, mas também de pequenos produtores de comunidades carentes da região, ele movimenta uma gama de valores culturais indispensáveis para a construção de uma referência no cenário brasileiro.

Palavra clichê na mídia gastronômica, a Experiência faz parte do ato de sentar e comer algo. Seja a ‘haute cuisine’, seja o dogão da esquina. Mais que uma iguaria no prato, busca-se a memória e a permanência. O pense na paisagem do título quer dizer isso: de olho no prato ou no entorno, valeu o vivido, pois, para onde mirei, o estímulo veio fácil.

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Conrado Carlos

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