Penúria e fúria: ofício de poesia
13 de agosto de 2010 às 15:41 - ComentarO poema “E para que ser poeta em tempos de penúria”, de Fernando Monteiro, dentre tantos aspectos, faz um duplo desafio: para que estou escrevendo isto, para que você está lendo isto? Nós, leitores, movemo-nos junto com o poema – comovemo-nos. Os tempos permanecem os mesmos?
Uma primeira constatação: poesia desafia porque existe e é lida.
Os tempos são de penúria: será assim para sempre?
A poesia, em seu corpo de palavras, diz que não: nos tempos de penúria, ela vai além. Certamente, sem qualquer garantia contrária de que a penúria acabará e pronto, final feliz. Mas surge uma possibilidade: a penúria pode não ser para sempre – embora possa também retornar, acabar de novo, retornar de novo.
Poesia, portanto, é ato de poder diante de outros poderes. Essa penúria é contra a poesia porque sabe com quem está lidando – e a poesia existe quando lhe responde no mesmo nível e com altivez. De nada adiantará a poesia entrar em estado de autocomiseração nem autoflagelação, síndrome do “ai de mim!”. Afirmar seu poder corresponde a sua razão de ser: digo, logo existo.
O desafio da poesia se faz aqui com palavras. Uma palavra significa algo, pode vir a significar muitas outras coisas e deixar de significar outras tantas. Penúria é mais que pobreza. Fúria é mais que agressividade. Poder é mais que governo e propriedade.
Há um poder que a poesia desafia por sua simples existência: o poder de dizer e fazer dizer (interrogar, indagar, confrontar). Por ser absurda num tempo utilitário, poesia subverte e, do ponto de vista de quem manda, precisa ser anulada – silenciada explicitamente ou transformada em tópico mundano de festa literária, com maior destaque para batida de maracujá que para as dificuldades e conquistas do verbo. Mas ela insiste: “pisar ao contrário” na terra do Curupira.
Para quê?
Para ser.

