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Pílulas para o Silêncio (Parte CXXII)

 

Para Sanderson Negreiros
(In memoriam)

Há poetas com os olhos voltados na direção do relâmpago. A captar não a força colossal do raio, nem muito menos o estrondo do trovão. Mas, sim, a fugacidade do instante, revelada na bendita pupila assustada de quem vê o mundo no brilho do acaso, do imponderável. Quase mister dos deuses.

***

Será que, nesta manhã novidadeira, alguém se lembrará de que os poetas se vestem de azul quando se encantam? De que as gaivotas grasnam, brancas de saudade, a darem pela falta de um vulto, que sempre desfilava pelas areias da memória, a catar versos no cocuruto das ondas, a catar prosas no quebra-mar dos dias, às margens do Potengi?

***

Na ponte Newton Navarro, Afrodite desfilou. Estava lépida e faceira, o ritmo da busca; veio para Natal com a missão, em lances exatos, de conduzir aos céus o poeta de Ceará-Mirim.

***

Caso as nuvens chorem, saibam todos, não será pelo encantamento de Sanderson, mas, sim, pela pátina de negritude que reinará entre nós, sem haver quem consiga ousar, neste Natal, nesta Natal, incrustar tão bem a pérola de um poema, o brilho azul de uma crônica, no lodo do nosso cotidiano. Ave, Fábula, fábula!

 

clauderarcanjo@gmail.com

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