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Pílulas para o Silêncio (Parte CXXVIII)

A suavidade do amanhecer sempre teima em sepultar os cadáveres insepultos da noite.

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Todo tratado de paz esconde, nas entrelinhas, o anúncio dos motivos da próxima declaração de guerra.
— Hélas!…

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Sabia tanto (pelo menos, assim se julgava), que passou a não ficar atento aos novos sinais de mudança.
Foi surpreendido pelo seu afastamento, anunciado, no fim de uma tarde insípida, em um memorando em letras góticas e em tom ferruginoso.

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Só quem lava os pratos é que pode avaliar a qualidade do tempero à mesa.

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Observar é a arte de colher, nos outros, aquilo que, no mais das vezes, se alastra feito erva daninha no próprio (p)eito.
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Em público, sobraçava, com ardor, tomos de Shakespeare, Machado, Cervantes, Dante. Ao chegar a casa, recolhia-se, extenuado, para enfiar os olhos ávidos nas (des)venturas de Poliana.

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A mediocridade é prima da presunção, e mãe adotiva de muitos dos atuais “doutos de escol”.

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A flor que brota no esgoto sabe bem da coragem da abelha que a polinizou.

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Muito da prudência nossa é mero disfarce para o mais puro medo. Muito da caridade em nós é anúncio de um pedido de crédito a Deus para saldar os nossos pecados berrantes.

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Se pensas em escrever o diário das tuas confissões e de teus feitos… prepara-te para o exercício de mentir com estilo.
clauderarcanjo@gmail.com

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