PoesiaPoetas e Poesias

Poemas de Romana Alves

Saúdo a saudade que invade a alma
Deita em nosso colo e nos ensina a ter falta
A preencher o vazio e adormecer o frio da dor

 

Saúdo a saudade que salga o nosso tempo com o sal da idade
Molha

 

“Salve a poesia
Salve a poesia!
Aquela que sacia os desejos
E protege dos medos mais escuros
A única que fala ao mundo a língua do sentimento
Sem entendimento
Sozinho
Salve a poesia!
A moça que veste a roupa da sua pele
Suada, feliz, queimada
Serena, triste, leve
Entregue…
Salve a Poesia!
A voz do silêncio que enlouquece os ouvidos
E empresta sentido à alma que ama
Enquanto declama verso na cama de um pergaminho”

 

Choro da Chuva
Chora chuva
Um choramingo baixinho na vidraça
Chuvisco fino que lava a vida e molha a alma
Ou mesmo um chorinho manso de menina
Música que encanta e depois nina
Os medos
Chora chuva
Um pranto desconsolado de segredos
Toró farto de quem restou sozinha
Quem sabe um dilúvio bravo de dor
Tempestade que invade a tarde e relampeja o dia
Chora chuva
Um granizo gélido sem cor
Pode chorar no meu ouvido
Pois de você qualquer grunhido é canção de amor”

 

“Gavetas
São tantas delas
Algumas velhas, outras com o puxador quebrado
Há aquelas que faz um bocado que nem abro
Outras caem no meu pé e bagunçam minha vida
Causando feridas que não cicatrizam mais
Há também umas tão lindas, decoradas com fitas de cor
Fotos, cartas, declarações de amor
Bons tempos que não voltam mais
Há ainda as pequeninas
Aquelas de menina com chaves e tudo
Onde um mundo de saudade se esconde
E quando se abre, tanta verdade em segredos amenos
Umas sempre abertas, levando luz para o arquivo
Encontros de amor que eu vivo e sublimam o tempo
Há algumas adormecidas dos dias em que a vida
Não guardou meu melhor sorriso
Outras cheias de espaço vazio
Mas em todas elas, mesmo naquelas amareladas, com mofo ou cupim
Há sempre um pouco ou tudo de mim”

 

“Desejos
Quem dera fincar no teu pensamento
Desejos
Flutuar nos teus devaneios
E fazê-los meus enfim
Quem dera acarinhar a tua alma
Ser quem desagua o amor sem fim
Etéreo
Quem dera atravessar o tempo e soprar ventos
Além da vida
Quem dera ser para ti
O que tu és para mim
Transcendental”

 

“Contramão
Não machuque o coração
A pele que o cobre
Não é de cobre nem de latão
Ela é suave como a brisa
Da tarde
E reveste de couro o fino ouro
Que nos move o peito
Por isso, mais soneto
E juras de amor ao coração
Que de longe arde por dentro
A dor de um sentimento
Na contramão”

 

Ciclovida
“Para guiar a bicicleta
Há de se soltar a boneca e segurar o ‘guidon’
Sentir o vento no rosto
Às vezes até a brisa
De uma mão amiga para apoiar o encosto
Mas há de se comer areia
Poeira
Pedras
Buracos
Quedas
Cicatrizes
Caminhos percalços em que se caminha só
Sem equilíbrio
E lá no meio
Quando tudo parece sem freio
Há de se cair uma chuva
Prata
Para lavar a alma
E dar de beber a cor
Um cheiro de terra sobe
E a gente descobre que nunca esteve só
Por trás dos montes
Um arco-íris”

 

Fios da Vida
Tece a prece e o terço
E a cama e o berço
Tece as flores e seus amores
A contento
E assim tecendo ela vai teando sonhos
E costurando ilusões
Tece a casa e a árvore
E um escorrego colorido embaixo da mangueira
E o regador na jardineira
E assim tecendo ela vai vivendo linhas perfeitas
Do viés ao avesso
Tece o sol e o azul do céu
E um lindo chapéu para o passeio em família
E assim ela vai bordando seus dias
Em riscos de pano tecidos sem enganos
À primeira vista
Tece um pássaro cantarolando
E uma cadeira de balanço
E um belo gato para lhe fazer companhia
Enquanto tece ela se esquece do tempo e da vida
E de repente, entre um cochilo e uma tecida
Seu gato puxa-lhe toda a linha

 

Quadrilha do Amor
Ame.
Ame muito
Ame pouco
Ame mais
Ame menos
Ame ao menos
Como se houvesse uma pane em seu coração
E de repente as batidas acelerassem e sem freio
Amassem em direção
A outro
Que ama.
Ama muito
Ama pouco
Ama mais
Ama menos
Ama ao menos
Como se houvesse voz no sentimento
E de repente o grito mudo declarasse ao mundo
Amor em direção
A outra
Que ama.
Ama muito
Ama pouco
Ama mais
Ama menos
Ama ao menos
Como se houvesse chance do amor partir
E de repente assim se despedir sem ardor
Do outro
Que ama.
Ama muito
Ama pouco
Ama mais
Ama menos
Ama ao menos
Como se houvesse razão no amor que ama um coração ocupado.

 

Novo Endereço
Se quiser me achar
Procure em qualquer lugar
São tantos endereços que até me esqueço
Por onde me encontrar
Identidade, signo, CEP
Foto, passaporte, CPF
Título, rua, registro de nascido
Certificados, Ideologias, carteira de trabalho
Digital, Plano de saúde, cartão postal
Sócio-torcedor, declaração, histórico de dor
Assinatura, carteira de estudante, escritura
Habilitação, cheques, procuração
Senhas, códigos, poemas
Eternos extravios
Labirintos vazios de um desvio feliz
Da entrega de ser errante aprendiz:
“Em Mudança!”

 

As Lavadeiras
Cores suadas molham as águas
E colorem elas
A dançar sem trégua
A cantiga das mãos
Cor se vê, cor não há
Cor vem ver, colorá
E lavam panos e escaldam pernas
As mãos esbeltas
No rasgar da pedra e acariciar do chão
Cor se vê, cor não há
Cor vem ver, colorá
Nuas, encantam e cantam
Em cada canto do ribeirão
E sereiam dias
De serenas noites
Que suaves sonhos
Em lençóis serão

 

agalume da Paz
Vaga vagalume
Venha logo em cardume
O mundo está escuro!
Vire luz
Traga paz

 

Bem-te-quis
Queria ser um bem-te-vi
Para te ver
E te dizer que te quis
Que bem-te-quis
Voar pro seu ninho
E te acordar com canto
De passarinho
Gritar
Bem alto
Burburinhos de amor
E fazer do vento
Um sopro de companhia
Mas estou cansada
Já não tenho asas

 

A Matrioska
Uma vez a que te declara amor
Na outra, a que te sorri
No instante a que te tem pavor
À noite, a que te faz cafuné
Ou a mesma que te maldiz
Logo cedo, a que te prepara café
E te queima em lençóis gentis
Posso a ser que te abraça
E também a que te grita
Inocente devassa
A querida amiga
Ou somente uma chata
A que te faz massagem no pé
E também a que te pisa
Todas em uma só mulher
Pequenas em miúdas
Médias em grandes
Faces da mesma pintura
Dentro de uma
As outras
Fora de todas
A matrioska

 

O que você quer ser
Quando crescer?
Astronauta para pisar na lua,
Guarda de trânsito, pintor, mecânico,
Ou simplesmente ser dono da rua?
Doutor para escutar o coração,
Motorista, professor, dentista,
Ou cantor famoso pela canção?
Engenheiro para construir lindas casas,
Prefeito, jogador de futebol, fazendeiro,
Ou piloto para voar sem asas?
Cientista para inventar um pouco de tudo,
Delegado de justiça, arquiteto, bailarina
Ou escritor para criar um novo mundo?
Mágico para fazer sumir,
Veterinário, juiz, jornalista
Ou palhaço para ver a platéia sorrir?
Bombeiro para salvar na hora do apuro,
Banqueiro, detetive, jardineiro
Ou super-herói para não ter medo do escuro?
O que você quer ser
Quando crescer?
Poeta para fazer rimar a melhor lembrança
Pescador, artista, atleta,
Ou nunca crescer para ser sempre criança?

 

Saúdo a saudade
Que invade
A alma
Deita em nosso colo
E nos ensina a ter
Falta
A preencher o vazio
E adormecer o frio
Da dor
A serenar o corpo para sentir
A cor
O cheiro
O sabor
O tom
Que se foi no vão do vento
Saúdo a Saudade
Que nos chove os olhos
Com o sal da idade
E molha o nosso tempo
De ausência cristalina
Salobra
Salina
Saudosa menina
Que vez em quando
Some ( )
E finge ir embora…
…Mas sempre volta.
Com ardor!
Para não deixar morrer
O amor*

 

Sertão Encantado

Meu sertão encantado
De castelos e rochas
Riachos
Secos
Cheios
À procura de cachos
E chuva
Curvas de um guarda-chuva
Fechado
Meu sertão encantado
De florestas de cactos
Sedentos
Guerreiros
Festeiros
De recantos e rudes
Costumes
Rendados
Meu sertão encantado
De laço e chita
Cordel e xelita
Doce
Menino
A matar o tempo no frio
Escasso
Meu sertão encantado
De princesas aos trapos
Dançando
E bruxinhas de pano
Cangaço

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