Poesia é uma palavra plural
25 de maio de 2010 às 14:12 - 5 ComentáriosQuerido João, amigos e amigas
Tendo a concordar contigo de que a poesia sofreu fortemente um deslocamento para as outras artes. Em todo caso, acho que ela sempre esteve em todas as artes e que a sua expressão escrita é (apenas) uma de suas faces. Talvez a mais tradicional.
Encontramos, por exemplo, facilmente poesia nas esculturas de Brennand, no cinema de Kieslowski, Buñel e Pasolini, na pintura de Cézanne (pintura “Nus na Paisagem”), no teatro de Antonin Artaud e até nas novelas de Luis Fernando Carvalho. A poesia é indomesticável e não se dá a todo mundo. Mas não está em tudo. Muitas vezes não está nem no poema…
Não sei se a poesia está disseminada. Continua a não vender e ser buscada mais como técnica de mediação para a produção de efeitos, do que vivida. Também não tenho certeza se a poesia deve ser disseminada… A leitura sim, tenho certeza.
Conversei apenas uma vez com o poeta Jairo Lima e, nesta ocasião, ele me disse uma coisa que jamais esqueci: “Hoje talvez só os poetas leiam os poetas”. Cada vez mais acho que ele está coberto de razão. Gostaria de acreditar no contrário.
Tenho ficado cada vez mais feliz com o volume e a presença de poetas aqui no SP. Você, o Jarbas Martins, a Carmen, a Sylvia Beirute, a Nina Rizzi, o Márcio, o próprio Jairo, a Ednar, o Sebastião Lopes, o Lívio, o Fernando Monteiro, entre outros, para quem peço desculpas desde já por não citá-los.
Se há mesmo um deslocamento e uma disseminação da poesia, o SP é a prova concreta de que isto está realmente acontecendo. Com a falta de apoio e espaço, o poeta tem buscado outros ares para mostrar o seu trabalho.
Ao longo dos anos, tenho tentado recolher pesquisas sobre o mercado da poesia no Brasil e os dados são sempre assustadores. No entanto, uma coisa é o mercado, outra é a atividade poética em si. Parafraseando Buñel, posso dizer que nas mãos de um espírito livre, a poesia é uma arma magnífica e perigosa, é o melhor instrumento para exprimir o mundo dos sonhos, das emoções e dos instintos.



5 Comentários
Lisonjeado pela citação do meu nome no seu belo texto, quero completar aquela nossa conversa com um trecho da primeira elegia de Rilke que, por sinal, publico hoje no meu site: (…) “Pois o belo não é
senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha destruir-nos”.
Já senti isto, na pele e no sangue, no final de Tannhauser, quando a sensação de esmagamento, de vórtice, de dilaceramento nos lança sem transição na imobilidade atônita do tal “mundo real”. O caba tem que ter estampa pra aguentar o tranco.
O fato é que este cabinha mofino de hoje, anêmico, neurastênico, vazio, amedrontado, ineficaz e barulhento, recolhido covardemente aos desvãos mais escuros da vida, não tem sustança nem para uma furada de agulha num exame de sangue, quanto mais para a violência suprema e bendita da Arte.
Para esta galera só vale o entretenimento anestésico que se sorve revirando os olhos e, nos desvarios de bêbado, chama-se de arte.
Meus Queridos Gustavo e Jairo,
Obrigado tb pelo belo texto e citação.
Jairo, gosto muito dessa elegia. De todas as elegias.
Acho que Jarbas devia escrver um Elegia para Natal e o Splural nesse dia tão denso de poesia
Rilke é para mim um dos maiores poetas de sempre. Já disse isso aqui.
Conheci Trieste e vi o Castelo de Duíno onde ele escreveu parte dessas elegias.
Um lugar maravilhoso. Onde existe um dos horizontes mais amplos que ja vi.
O mar Adriático. Ali onde nasceu a nossa civilização.
Ali, naquelas margens, onde o homem se fez homem.
Abraços Fraternos todo molhado
oi gustavo, engraçado ler esse texto agora, bem agora que acabo de ler seus poemas vis pela qaurta ou quinta vez. concordo com jairo lima e vc, e também já disse isso: le poesia quem faz poesia, vai ao teatro quem faz teatro… por outro lado, depois de te reler, os poemas, continuo a crer que a poesia está sim em tudo, ou então nos olhos de quem vê poesia em tudo, em dubais, nas loucas, nas prostitutas e nas gamas cromáticas da praia de ponta negra e seus meninos jogadores. até mesmo na luta de torcidas ceará x fortaleza.
sim, a leitura tem que ser divulgada. olha só a beleza que um texto como esse faz com a gente…
beijos.
Caro Gustavo, não seria eu hipócrita para negar que não estou feliz, me sentindo reconhecida e agradecida. Vejo aqui, agora, o teu comentário e confesso que o degusto como se fosse um bom vinho que entra através dos meus olhos e vai no mais fundo do meu coração, entrando nas entranhas dessa minha alma poética.
Concordo com o que dizes em relação à necessidade de se difundir a leitura, pois a poesia, como bem disseste, está, atualmente, restria aos poetas (só poeta lê poeta), que triste, pois creio que a poesia, também, é cultura e deveria ser disseminada sim. Felizmente, para meu regozijo e total felicidade, no “plural” temos poetas dos bons e como disse o Jairo Lima, a quem também louco: “O caba tem que ter estampa pra aguentar o tranco”… rsrs… E mais ser poeta não é fácil não. Fazer poesia sobre a Copa do Mundo é muito simples; quero ver mesmo é vomitar emoção!
Gustavo querido, um grande abraço! Obrigada! Lisonjeada!
Retificando o comentário feito ao amigo Gustavo de Castro, na parte que me referi a uma citação de Jairo Lima, a palavra não é louco e sim louvo, quando cita a seguinte frase:
“como disse o Jairo Lima, a quem também louvo: ´O caba tem que ter estampa pra aguentar o tranco´…”
Agradeço a compreensão da loucura do teclado no momento… Rsrs…