Poesia, um assunto de mulher

3 de outubro de 2009 às 8:21 - Comentar
Por Nelson Patriota

A edição do 13º encontro nacional Mulher e Literatura, encerrado ontem num hotel da Via Costeira, em Natal, foi abordado na imprensa potiguar escrita com um anacronismo: “literatura é coisa de mulher?” Não é difícil para um estudante secundário de escola pública lembrar nomes como os de Safo de Lesbos, entre os gregos da antiguidade, ou o da norte-rio-grandense Nísia Floresta, no século XVIII, ou de Auta de Souza, no início do século passado, entre os inúmeros poetas do segundo sexo. Enfim, literatura, como os demais produtos culturais humanos, sempre teve aportes dos dois sexos. O mais espantoso de tudo isso é estarmos aqui repetindo uma tão gritante obviedade…

Se insistir num anacronismo já soa preconceituoso, formulá-lo chega a ser deselegante, sobremodo quando a interpelada é uma poetisa portuguesa que responde pelo nome de Maria Teresa Horta, e cuja obra está antologiada em modernas coletâneas da poesia lusófona dos nossos dias, como a “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea – um panorama”, organizada pelos poetas Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno.

Elegante, a poetisa não conseguiu evitar a armadilha das discussões de gênero, que desde três ou quatro décadas dominam os encontros literários e artísticos do mundo inteiro, contaminando com a ideologia dos sexos um tema ao qual oferece mais sombras do que luz. Mas uma citação de Virginia Woolf, aliás, a menos feminista das escritoras inglesas avant la lettre, ajudou-a a fazer um acerto de contas com a questão. Horta citou de memória um argumento que sobressai pela sua ingenuidade: “Por que ela (a poetisa) teria de escrever sob parâmetros masculinos e, não, sob os seus, de suas vivências e do seu modo de enxergar seu mundo, o feminino?”

Seria surpreendente se o contrário fosse exequível. Pergunta que, como não ocorreu ao repórter, encerrou a fase “polêmica” da entrevista com a homenageada portuguesa. Em outro momento, ela teria a oportunidade de lançar para o numeroso público do encontro o seu livro “Poemas do Brasil”, espécie de retribuição simbólica ao prêmio que veio receber entre nós.

Mas, ao lado da portuguesa Maria Teresa Horta, o encontro “Mulher e Literatura” teve outros desdobramentos. Por exemplo, voltou o foco de suas homenagens também para a poesia potiguar. E a escolha recaiu sobre a poetisa Diva Cunha que, a exemplo de sua colega lusitana, retribuiu a escolha autografando na quinta-feira passada, durante o encontro, seu novo livro de poemas, “Resina”.

“Resina” sucede a “Armadilha de vidro”, lançado em 2004 pela Una, o qual, por sua vez, sucedeu a “Coração de Lata”, de 1996. Antes, publicou “Canto de página”, em 1986, e “A palavra estampada”, em 1993. Cinco títulos de poesia, portanto, que refletem uma maneira própria de encarar o fazer poético: com economia e moderação, comportamento que a aproxima do numeroso contingente de escritores que conjuga, junto ao verbo escrever, o verbo cortar, ali onde outros elegem o alternativo reescrever. Poesia discreta, quase minimalista, de coisas concretas, drummondiana, real.

Não obstante, Diva Cunha não é só uma mulher que escreve poesia. É também uma pesquisadora da literatura norte-rio-grandense e de outros temas que foi recolhendo vida afora, fosse na academia, fosse no próprio contato com o mundo dos livros. Isso a levou a diversificar seu foco de interesses na literatura. Assim, a pesquisa passou a disputar espaço com a sua poesia e, pouco a pouco, foi ganhando crescente atenção de sua parte. A parceria com a professora Constância Lima Duarte, mineira com interesses literários vinculados à vida e à obra de Nísia Floresta, só veio reforçar essa vertente da obra de Diva.

A homenagem que o 13º encontro Mulher e Literatura fez à poetisa de “Resina” é obviamente extensiva à organizadora de livros como “Iniciação à poesia do Rio Grande do Norte” (1999) e “Via Láctea – de Palmyra a Carolina Wanderley” (2003), ambos em cooperação com a colega mineira. Sem implicações de gênero, naturalmente.

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AGENDA

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente