Poeta Anchella Monte, minha amiga. 40 anos

João da Mata
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Quarenta anos em estado de poesia. Já nasceu poeta. Acompanho sua trajetória nessas primaveras de lágrimas e sorrisos. Na quietude das notes cheirando a manjericão que levava para sua casa na Meira e Sá. No cheiro do Jasmim advindo da casa vizinha da também amiga Hiramises. Tempos de sonhos e brincadeiras ao luar, nas praias sem violência. Cantorias aos ventos. Na profundeza dessa passagem há uma canção que não envelheceu. A amizade é um amor que nunca morre. Guia e embriaguês.

Como náufragos das palavras nos esburrachamos nelas. Para tecer o poema, projeto. Para viver só preciso da chuva e dos ventos. Com as palavras posso me mapear pelos sete chakras e cicatrizes. Guardar amarelece, prefiro não cortar os sentidos e cabelos. Anchella comemora 40 anos de poesia em pleno viço feito de silêncios e pausas. “O círculo é o mundo” diz Anchella se embriagando das águas São Pedro – Potengi.

Rios. Rio escorre reveses que a vida inventa e conserto com as palavras. A poeta sofre com a dor do mundo. “Quando você cortou os pulsos as minhas veias sangraram”. Mas, adverte: A dor não conserta nem ensina. A dor poema. Pensa em não ler mais nada e cortar palavras. É esse o ofício do poeta. De uma casa promontório a poeta ver o mundo extasiada.

O Gato. O Azulão. A árvore que chora. O Beija-flor. O poema na Parede. A rede suspensa nas varandas. O tempo para. O relógio não tem tempero.

Maria olhe o feijão queimando. Seu nego chegou de porre. A vida é mesmo redundante, constata a poeta.

É a hora do Ângelus e tudo fica calmo. A rua olha a casa meu prumo. Minha pasárgada-promontório de onde a poeta descreve o mundo para nós náufragos. Alvíssaras. Ave Anchella. Ave pesos e penas.

Todos caem com a mesma aceleração da gravidade da poesia pesos – penas de Anchella:

“Andava cautelosa
pelas vigas de madeira encerada
a claridade fria da manhã
percorria antes de mim
os pesados bancos e seus hinários.

A medo, antes que chegassem
homens e mulheres e orações
olhava deslumbrada a paisagem:
generosa luz sob uma aldeia
um rio derramado em meandros.

Ali entrava e erguia-me
nas árvores de frutos entre a aldeia e o rio
pés a voar no vento que surgia
como um sussurro.

A hora vinha, ia ao muro
para ver a passagem dos fiéis
e ouvir os cânticos iniciais.
Agora o louvor era triste
a água livre do rio aprisionada
no lavatório do batismo.

Morávamos no porão da igreja.
O porão e a igreja, um só abismo.”

Temas também Roubados

a Anchella Monte.

João da Mata

Temas vividos
Os dias idos
E vindos

A onda vagueia
O dia entontece
A dor esporeia.

Os fios tecem os dias
De silêncios e preces
Universais.

Era uma casa
Que habita o silêncio
De uma lagartixa

A poesia jorra e molha
O canto que inunda à tarde.
De pássaros selvagens

O dia deu em partes
Cães rastejam
E ganem para a lua

Ouvindo as estrelas
Em noites pirilampos

As Ninfas embalam
Marinheiros cansados
De tanto mar-a-mar.

Doces canções – madrigais
A poesia aprende no dia
a ser- só- silencio

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João da Mata

Comentários

1 comment

  1. Maria Aparecida Anuncita Bacci 4 setembro, 2017 at 13:15

    Parabéns, João da Mata pela belíssima homenagem a grande poetisa Anchella Monte.

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