POETA DA SEMANA: Iara Carvalho

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Iara Carvalho nasceu em 1980, na cidade de Currais Novos, Seridó Potiguar já poesia por si só. É graduada em Letras e Mestra em Estudos da Linguagem, pela UFRN. Foi uma das fundadoras do Grupo Casarão de Poesia, atuando como agente cultural em “Currais”. Como poeta, venceu o 3º Concurso de Poesias Zila Mamede (Parnamirim/RN, 2006) e obteve a 3ª colocação no Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody (Curitiba/PR, 2010), dentre outros concursos. Participou de diversas coletâneas de poesias e contos resultantes de premiações literárias e compõe uma das cinco vozes femininas presentes no livro “Por cada uma”, publicado pela Editora Una, em 2011. Nesse mesmo ano, lançou o seu primeiro livro de poemas, Milagreira. Em 2015, nasceu Saraivada, livro também de poesias. Eis uma mostra pequena da poesia de seridós femininos, de Iara Carvalho, nossa POETA DA SEMANA:

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SEGREDOS

as operárias
atravessam a rua
com seus cabelos vermelhos.

disfarçam
planos incendiários
silêncios estratégicos
sonhos verdejantes.

quando voltam pra casa,
os companheiros
permitem toda ausência
e pudor.

o que as operárias
guardam no fundo
do formigueiro
ninguém sabe,

mas é coisa muito grande:

um esqueleto,

uma flor

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SOB A CASCA

Em época de caju,
sou toda carne.

Semeio ranços
ladinos
(suaves).

Disfarço-me
de fruto
por cada
boca onde passo.

Fibra e óleo
cativos:
fajutos de tanto
escárnio.

Sou torra e sal
em tempo de caju:
pele irônica,
mel nativo,
céu sem chave.

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UM HOMEM EM CONSTRUÇÃO

Sobre o delicado terreno
do coração,
construo o meu homem:
é de carne e louça
a máquina do seu corpo
tão deserto.

A estrutura lírica dos olhos
ouso urdir com barro e lenda:
rompem da caixa uns vulcões
tão castanhos
quanto poéticos
(afetos).

Depois de caiada a mansidão
do sorriso,
mordo as arestas,
beijo o siso,
lambo um por um
os pelos da barba taciturna.

Mas o cimento é móvel:
não reconheço a voz de pedra,
obscuras são suas mãos…
E por dentro da noite
fico sem a memória
daquele rosto moreno e nu.

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NÃO SEI ME CONTER

Meu corpo transborda
como uma folha caindo
de um quadro de Monet.

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PELO CAMINHO

Os mocós
correndo
nas cercas
de pedra
não me
espantam.

Eu mesma
correria se
tivesse pés ágeis
e tamanha
vontade de
viver.

O que me
assombra
nas pedras
das cercas
é o seu manto
solitário,

a espessura
úmida
do seu porte
de mistérios
sonorosos
e viris,

esperanças
mocozadas
entre mil
tumores
estirados
sob o sol.

Fascinada,
penetro o caminho
oblíquo
dessa cortina
de lágrimas
secretas:

tão imensa
é a fatia de
Seridó
no terreno
maduro
das lembranças.

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FOTO: BUCA DANTAS

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