POETA DA SEMANA: Maria Maria Gomes

DestaquePoetas e Poesias

Maria José Gomes adotou o nome literário de Maria Maria Gomes e esta poetisa foi quase adotada por Moacy Cirne em seu Balaio Vermelho, sempre recheado de suas poesias. Maria Maria nasceu em Currais Novos. É formada em Letras pela UFRN, com pós-graduação em Literatura Luso-brasileira, pela mesma Universidade, e em Educação, Pobreza e Desigualdade Social. Especialista, também, em Literatura e Ensino pelo IFRN. Aos 14 anos, escreveu os seus primeiros poemas. Aos 16, o primeiro romance, ainda não publicado. Recebeu menção honrosa no Concurso de Poesia Othoniel Meneses (Funcarte) e no Concurso de poesia Luiz Carlos Guimarães pela (FJA). Conta com 10 livros publicados nos gêneros prosa e poesia, sendo o Proposta de Chuva, vencedor do Troféu Cultura ano passado. Atualmente organiza os blogs literários Espartilho de Eme e Água de Chocalho. Coordena o site pessoal www.caatingueirices.webnode.com. É consulesa do Seridó, título conferido pelo movimento poético Poetas del Mundo, com sede no Chile. É professora de Língua Portuguesa nas Escolas Estaduais do RN em Currais Novos. E é nossa POETA DA SEMANA!

————

A mistura dos dias

Fez-se uma soma de sonhos:
pedaços enfileirados de coisas supérfluas,
não fundamentais aos demais dias.

Foi uma manhã desse modo como receituário botânico:
porções verdes: palhas brancas e azuis,
necessárias à cura.

Depois…tudo assentou-se
sobre os pontos dos bilros, e os marcadores do tempo,
ocuparam seus lugares de origem.

————

A sombra da tarde

A sombra da tarde
diz sim às minhas flores.
Primeiro, o poema!
Depois o fogão, a louça
e a casa inteira se enfloresce
de ilusões sábias.

Meu universo nômade,
arenoso e seco,
visita o deserto dos Tuaregs, homens blue
Enquanto eu pinto as paredes com pinceis de agave
e retrato-me, feito átomo, em cada esfera
da parede cinza.

Tenho olho de vidro e bolas de cristal
que engoli na infância de um tempo doce.
Os crótons, tomam sol pela manhã,
e eu sigo o conselho da minha mãe:
À tarde todos nós precisamos de sombra,
Inclusive as flores.

————

Anseios

Não desejo um homem barroco
Não desejo!
O homem barroco
me (mantém)
Inatingível e inalterada.

Desejo um homem que sinta gosto de pele,
que me dilacere o corpo.
Desejo um homem para
(acordar)
meus sentidos.

————

Aprendiz

Ser bruxa ou fada não importa,
sou mesmo uma faca
de dois gumes.

Construtora
sem o prumo
da palavra.

Sou nada nesse mar
ou uma folha a voar
nesse mundo.

————

Audições

Ouço o som do boi ruminando
folhas secas nos pastos magros
da terra que me acolheu século ontem.

Ouço o estilhaço festivo dos galhos esguios,
discutindo entre si o futuro
de nossas serras cor de areia.

Ouço o vento
-cavalo bravo-
farfalhando sinestesias e hipérboles
pelas noites seridoenses.

Ouço a queda de uma gota de chuva,
caindo e rachando a terra sedenta
e ingerminável.

Ouço o lamento da fêmea sertaneja estrangeirando-se
(des)esperançosa com as retirâncias das nuvens,
desviadas pela força do tempo magoado.

————

Caça

Temporada de caça aos poetas
aberta nessa manhã desconhecida.

Um poeta entocado no tronco de um baobá
pelas bandas de Nizia Floresta.

Outro numa loca escondida nas proximidades
da Pedra do Navio, em Currais, no Seridó ardente.

Em Mossoró, de onde fugiu Lampião,
um bando deles escrevendo pelas ruas.

No Beco da Lama, pelo interior dos bares antigos,
um outro escondido, tomando cana de cabeça.

Aberta à caça a um fonema entorpecido pela imaginação
do poeta que chora o tempo de ontem.

Temporada aberta à caça das palavras mais sinuosas,
voluntárias ao discurso de um poeta torpe de solidão.

————

Canto à ventania

As três ventanias:
ninho indiano, mangueira e castanhola.

O ninho indiano balançava-se lírico pela rua,
a mangueira, mais gorda e grávida, tentava dançar
ao som do vento.

A castanhola bailava, valsando Royal Cinema.
E eu, da varanda abobadada de minha casa,
escrevia um canto lírico à ventania.

————

Capricho

Meu coração amanheceu
caprichoso e febril:

fez festa
-na madrugada.
E com os sonhos,
da noite passada,
pintou palavras
com as cores de abril.

Share:

Comentários

Leave a reply